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domingo, 26 de setembro de 2021

Arqueometria da Evolução Divina

O Universo possui muitas camadas que se sobrepõe. Ciclos de diferentes naturezas convivem todo o tempo. São como estradas ou frequências de energia nas quais pode penetrar a nossa consciência. No entanto, quando existe um esforço de evolução, a tendência é a consciência mudar de estrada passo-a-passo, como numa mudança de ritmos e de escalas de evolução. Os grandes iniciados são aqueles que os transpõe resolutamente então, dispostos que estão a não se deter e nem se apegar aos frutos colhidos ao longo da senda.

A Arqueometria simbólica é a ciência das medidas multidimensionais, regida não obstante por leis espaço-temporais de perfeição, integrando e harmonizando o macro e o microcosmo, formando com isto as bases de uma arcanologia universal que reflete a verdadeira natureza cósmica das coisas, como uma autêntica Cabala da evolução. Quando se fala do Manu como homem modelo, ou sobre filiação divina ou do microcosmo perfeito, tudo isto remete pois a este padrão evolutivo e aos frutos regulares que ele é capaz de conferir. 

Na prática representa realizar o máximo de aproveitamento do tempo e do espaço, buscando os melhores locais para a própria evolução e no prazo de tempo mais adequado possível, de modo a obter o maior proveito das condições naturais, culturais e planetárias, como um exemplo-master de sabedoria aplicada. O verdadeiro modelo que um Buda representa é aquela de conduta ou da sua própria postura diante do mundo, entrando os aspectos físicos ou raciais como secundários, embora com idêntica adequação naturalmente.

No Budismo existe então um título principal para os Budas que é aquele de Tathagata, ou “aquele que é como os anteriores”. Contudo, o que se esconderia realmente por detrás deste solene título que afirma a existência de um padrão entre todos os Budas?! Trata-se pois de um padrão evolutivo, retratado de muitas formas nas tradições, especialmente em função das suas três etapas principais de iniciações.

Muitos ensinamentos tratam então destas “três partes do caminho” -e nem vamos fazer alusão aqui a Hermes Trismegisto ou às três fases da Obra Alquímica, ou mesmo à Grande Tríade chinesa. No campo das iogas, o nobre fundador da Grande Fraternidade Universal, Serge Raynaud de La Ferrière, escreveu uma importante obra chamada “Yug-Yoga-Yoguismo” (YYY). “Ioguismo” se refere a todos os preparativos e complementos da ioga. Esta por sua vez, representa as técnicas espirituais em si, sejam física, emocional ou mental. Ao passo que yug, raiz de yoga, significa jugo e unidade, contendo suas próprias iogas especiais. De nossa parte, também relacionamos este quadro à evolução da espiritualidade nas formas de Xamanismo, Ioguismo e Teogonia, tal como se pode naturalmente associar também aos três reinos superiores do planeta, que são a humanidade, a hierarquia e a divindade.

Existem então alguns esquemas famosos que podem ser muito bem aplicados aqui, especialmente a partir das suas bases geométricas ou matemáticas tradicionais, como são o chamado “Teorema de Pitágoras”, já em amplo uso no Egito Antigo para diferentes fins, e a mandala sintética conhecida como Sri Yantra (à esquerda), também muito empregado no Oriente como objeto de meditação, aos quais ainda se pode agregar naturalmente o stupa budista como símbolo do próprio Buda. Existe por fim nesta linha uma série de símbolos divinos compostos muito importantes, do tipo do caduceu e do globo-alado-serpentino (abaixo), e cuja numerologia pode ser analisada através do seu paralelo na forma do Nome Divino hebreu ou cabalista IHVH.

Vale lembrar aqui, que estamos trabalhando especialmente com as formas essenciais do universo, que são aquelas que compõe os cinco sólidos regulares, os quais naturalmente também entram paralelamente na composição destes ciclos -ou seja: o quadrado, o triângulo e o pentágono. Os famosos “brinquedos” enfim com que o deus Baco organizou a Criação, abaixo...

O primeiro destes esquemas seria pois próprio o “Triângulo de Pitágoras”, onde cada face deste Triângulo –tal como a “energia” das suas respectivas geometrias- confere a base para uma dada etapa de evolução ideal do indivíduo, em termos de ciclos obtidos pelos quadrados dos seus valores, como se sabe. Contudo, a fim de se chegar aos resultados finais corretos, é preciso incluir também os valores respectivos do Triângulo central “original” a título de sínteses ou como fractais-de-transição (sempre necessários em termos de ciclos), como abaixo, gerando ciclos sempre bem conhecidos como o katun maia (20 anos), o zodíaco (12 anos –literalmente aqui, o zodíaco Joviano, tal como os 12 ângulos do Tetraedro) e a chamada “idade de Jesus” (30 anos):

             a. Personalidade ...... 16 + 4 = 20 anos

             b. Alma/Psiquê ........ 9 + 3 = 12 anos

             c. Espírito ................ 25 + 5 = 30 anos

                          Total .......................... 62 (anos)

Os termos dados são não obstante generalizações ou ampliações de conceitos esotéricos usuais. ”A” de Personalidade inclui toda a formação humana em termos e infância e adolescência, com seu corolário fractal alcançando a idade adulta. Comparamos então esta formação completa ao xamanismo e ao ioguismo.

“B” de Alma/Psiquê abarca toda a evolução iniciática elementar e mais alguns graus avançados de iluminação –trata-se pois a fase do ioga e das iniciações. E “C” de “Espírito” já abrangerá as evoluções búdicas ou divinas propriamente ditas, simbolizadas então pela hipotenusa do triângulo –é então a fase do yug final.

“A” e “B” somam sete degraus (4+3) com seus 32 desdobramentos então (20+12), bem como nos Caminhos de Sabedoria da Cabala. Então tudo soa como a dizer que, ao se alcançar evoluir nas Sete Iniciações até os 32 anos de idade, a pessoa se habilita a “dobrar a aposta” da evolução numa nova escala de coisas, agora efetivamente divinas e superiores... 

Nesta síntese “C” se reúne daí as evoluções búdicas, mais exatamente os Quatro Corpos do Buda, tal como os Quatro Mundos da Cabala com suas respectivas Árvores Sefiróticas, evoluindo sobre os Quatro Planos Cósmicos (4x6). Por outro lado, a soma B+C remete aos 42 Anos de Provações do Apocalipse, que precisa o ciclo probatório de 40 anos (entre outras medidas de tempo) comum na Bíblia.

Uma das coisas interessantes a respeito do número final 62 (próximo aos 60 ângulos do Dodecaedro e do Icosaedro) –que é um valor todavia desconhecido na numerologia sagrada corrente-, é que corresponde à inversão do “divino” valor 26 de IHVH, e como tal também resultando em oito (ou 26+62=88). Se juntarmos estes dois “oitos”, um horizontal relativo às evoluções primárias e secundárias do Buda (representadas pelas faces “A” e “B” do Teorema de Pitágoras), e outro vertical para simbolizar a contraparte da sua evolução terciária (representada pela hipotenusa ou face “C” do Triângulo de Pitágoras), teremos a cruz do duplo-dorje (ou visvavajra), ao lado. A subtração 62-26 confere por sua vez o valor solar 36 (6x6), ou um ciclo completo de evolução cósmica...

Com tudo isto estamos levantando uma abordagem completamente inédita ou original –até onde se conhece hoje, naturalmente- deste Triângulo em especial, posto que os restantes símbolos já se costuma mesmo relacionar à iniciações. Outro símbolo pitagórico a que temos dado amplo emprego iniciático é aquele da Tetrakys (a fórmula 4-3-2-1, segundo a devida ordem esotérica do símbolo), ao lado, e que corresponde em “média” também ao Triângulo central da Alma-em-evolução no Triângulo de Pitágoras, que é quando se percebe mais claramente a evolução da espiral do tempo.

Ato seguinte passaremos para a arquitetura dos stupas, cuja geometria resulta da mesma forma bastante evidente, demonstrando então a ordem ascendente correta para retratar a evolução Personalidade -> Alma -> Espírito. As interpretações que geralmente se apresenta dos stupas quase se limitam a falar dos cinco Elementos, quando na verdade existe muito mais em vista, alcançando todas as dimensões cósmicas da evolução. O próprio símbolo soli-lunar do topo remete ao Adi-Buda primordial, o Trono Supremo de Yab-Yum Pai-Mãe. Então aquilo que temos realmente ali representado é isto sim uma grande escalada iniciática, partindo do mais humilde até o mais glorioso existente sobre a face da Terra...

Quanto ao simbolismo do pináculo deste stupa, se começa ali a detalhar aquilo que acontece aos Budas propriamente ditos –note-se que a rigor existe uma espécie de duplicação da geometria do stupa neste pináculo, configurando assim as “duas rodas” da evolução dos Budas -representadas por símbolos como os da vesica piscis, as duas HEs do Nome Divino IHVH, o dorje e outros afins. Ou mesma na forma do Arcano VII do Tarô, "O Carro de Deus" afinal estamos mesmo tratando aqui de um grande conjunto setenário de ciclos... Note-se então que a posição central onde se costuma representar os Budas (e usar como relicário) corresponde ao pentágono culminante, e isto possui duplo significado, porque o ponto de mutação é justamente a Quinta Iniciação. Podemos até falar aqui em termos de uma transferência de energia de uma tríade básica para outra superior, “coordenada pelo Adepto”.

No alto de tudo, temos então o mencionado símbolo logóico soli-lunar, que comparamos ao Tao, e onde os dois ciclos de evolução búdica como que se abraçam por fim. Resulta que os stupas recebem muitas variações, derivado das próprias variáveis com que se possa analisar os ciclos búdicos. Regra geral, podemos facilmente pensar que um Buda segue sempre evoluindo, como forma de aperfeiçoamentos finais.

Por fim, temos a mandala do Sri Yantra, ao lado, também representado não raro de forma tridimensional como pequenos stupas, para fins de amuleto de meditação. O quadro abaixo busca delinear pois o “programa” espiritual completo dos Budas, corroborado pela análise dos três ciclos principais do Sri Yantra (outros detalhes são dados em nossa obra autobiográfica “Uma Vida com a Ioga”):

Por fim consideremos a questão da gematria do Nome Divino IHVH, o qual possui notadamente três componentes principais e um repetido (a He). A Fórmula Divina não oferece muito detalhes por si só, porque trata mais é dos quatro princípios da manifestação do Logos, ou das energias características dos quatro tipos de Budas. Mas neste caso, e em se tratando de tema cíclicos, nos será de especial utilidade a Tetraktys de Jacob Boehme construída sobre o Tetragrammaton IHVH, abaixo. Esta Tetraktys especial nos confere então o valor dos 72 Nomes de Deus na forma interativa, como segue:

                                   Iod .............................. 10

                                 Iod-He ........................ 15

                                 Iod-He-Vau ................ 21

                                 Iod-He-Vau-He .......... 26

                                               Total ............... 72

72 anos é um valor astronômico bem conhecido, sendo oportuno como tal para a completa evolução humana. Cabe somar ainda alguns destes grupos entre si para termos as grandes divisões destes ciclos:

10+15 = 25 (próximo aos 24 ângulos do Cubo e do Octaedro)

10+15+21 = 46

Sobre este último em especial, que reúne os Três Princípios Iod-He-Vau, é importante lembrar da usual intercessão da letra Shin (ao lado e também em destaque no tema de Boehme), a 21a letra que praticamente encerra os Arcanos Maiores (em 3x7), ao ser colocada no meio do Nome Divino para lhe dar conteúdo trino de Unidade-em-manifestação, e elevando daí o seu valor para (26+21=) 47. Note-se daí que 48 é um número de totalidade das energias planetárias em algumas doutrinas tradicionais, por representar 4x12 ou quatro ciclos ou rondas de evolução superior da própria humanidade, refletido naturalmente na formação dos quatro corpos dos Budas.

Encontramos aqui pois variantes que contribuem para pensar o nosso assunto com maior riqueza de detalhes, achando termos comum com os outros esquemas já analisados -e mais uma vez poderemos ver o quão precioso é o trabalho multicultural para elucidar os temas mais abstrusos.

Nisto tudo temos, pois, o plano da formação das Três Atenções de que fala Carlos Castaneda. Na infância e na adolescência (ou de “Ioguismo”) forma-se o Tonal, a zona das coisas conhecidas, ou o plano racional, ao longo de um período que corresponde ao ciclo katun maia de 20 anos.

Na fase adulta (“Iogas”) esta mesmo estrutura é então reordenada (ou “retificada”), para ser depois “desconstruída” em definitivo na fase seguinte. Esta reorganização dos elementos da “Ilha do Tonal” visa purificá-los para oportunamente se poder realmente transcender, num período e ritmo evolutivo semelhante à uma Tetraktys pitagórica de 10 anos.

Até que chega a fase do Nagual, a zona das coisas desconhecidas ou dos Mistérios Maiores. Nessa última também podemos fazer uma divisão central entre formação e retificação, que ocorre especialmente em torno dos 40 anos de idade, quando as coisas podem ser também renovadas na direção da unidade final.

Para maiores detalhes sobre estes temas, remetemos também o estudante às nossas obras “Maitreya – a Luz do Novo Mundo” e a “Registros de Hyperion”, do Editorial Agartha.


terça-feira, 21 de setembro de 2021

O Mito de Prometeu

O tempo é um caminho que a pessoa toma segundo as suas próprias aspirações. Muitos procuram caminhar pela vida como numa lenta carroça, outros fazem a sua jornada como num trem, mas uns raros tomam o seu destino como num avião -o que sempre demanda mais esforço, consagração e sacrifícios nesta senda dotada de uma “superior tecnologia” ou uma especialização nos conhecimentos, mas que também lhes permite ir mais longe dentro dos limites naturais da própria vida humana.1 

Os Altos Caminhos da Iniciação são também naturalmente os mais exigentes e seletivos. Aquele que logra superar o Umbral da Cruz pode se deparar ainda com um longo período de padecimentos probatórios. Mesmo para superar este Umbral é necessária uma preparação precoce e exemplar, tal como se realiza na Via dos Bodhisatwas de Serviço na Terra. Para isto cabe tomar a Via Rápida da iniciação, dentro do cronograma de Shambhala, também chamada de Caminho do Raio (literalmente: Vajrayana) da Árvore Sefirótica da Cabala, a fim de conseguir sobreviver às provações e ainda ter energias e tempo suficiente para habilitar-se a avançar para uma nova roda do tempo ou adentrar em um novo ciclo de iniciações maiores, as quais também podem estar sujeitas a esforços e padecimentos, caso a pessoa se decide por seguir atuando no planeta. É preciso compreender então que os grandes Iniciados são acima de tudo sobreviventes de provações maiores, e subsistem apenas em função de novas energias a que tem acesso, sem garantias porém que isto lhes dará uma completa liberdade, ainda que o seu aperfeiçoamento sempre possa amentar as suas chances.


Numa de suas obras mais luminosas, o grande Ibn Arabi postula com clareza as provações que se acham no caminho do aspirante avançado:

“É imprescindível a todo ser dotado de inteligência saber que a viagem está repleta de penalidades, privações, provas e desgraças, que é um contínuo superar perigos e temores imensos, por isto é impensável pensar encontrar durante ela qualquer tipo de bem estar, segurança ou prazer: as águas são de sabor alterável e os ventos seguem direções opostas.” (“O Tratado das Luzes” ou “O Livro da Viagem Noturna”)

Com efeito, o tema da renúncia ao nirvana também está presente desde as raízes na tradição sufi. A exaltada mestra Rabia de Baçorá (acima) já pregava a dupla renúncia em seus cantos e mensagens. Um dos símbolos mais comuns das tarikas ou confrarias é o duplo-machado em Cruz, à direita, e cuja origem se confunde com as dinastias místicas da Pérsia ou com o próprio Império Otomano, para assinalar o corte de desejos tanto terrenos quanto celestiais, porque Allah está ainda acima de tudo isto...

O Bodhisatwa é pois alguém que avançou de forma resoluta independente das penas e sofrimentos inerentes à grande senda sacrificada.

O que representa então para o Bodhisatwa este “permanecer no samsara” –ao lado de toda a carga de sofrimentos de diversas índoles a que o Mestre se sujeita? Significa sujeitar-se a uma redução de consciência anímica e de energia pessoal, compensada de certa forma por novas conquistas e capacidades. São seres que suportaram grandes provações e vieram do outro lado com grandes conquistas, ao mesmo tempo que jamais retornam de todo, formando por isso -e idealmente falando- o chamado Governo Oculto do Mundo. Se este ideal em algum momento chega se concretizar, isso já não depende apenas deles, e sim daqueles que estão do lado de cá das coisas.

Seria importante analizar aqui o simbolismo da cruz -especialmente a chamada Cruz latina- de uma forma mais ampla. Esta forma minimalista pode aludir a muitas questões, e esotericamente ela remete a realidades complexas como a do caduceu. Contudo, enquanto processo podemos partir também das próprias questões probatórias que podem resultar na ativação final e completa dos sistemas esotéricos. Esta Cruz corresponde pois ao sistema nervoso central e também a esforços que possam induzir ao seu trabalho superior. Por extensão abarca também o complexo muscular adjacente envolvido nas crises iniciáticas.

A trave vertical tem relação naturalmente com os Chakras e também com os órgãos centrais e a própria coluna vertebral. A trave horizontal porém pode comporta um simbolismo fisiológico próprio, e muito significativo através das próprias asas do caduceu. É certo que estas asas têm relação primária com o próprio chakra Ajna, porém aqui queremos estender esse simbolismo a uma fisiologia e a um simbolismo paralelo relacionado às asas místicas dos chamados Chakras das omoplatas, relacionados às asas espirituais. Sabemos que esta região é particularmente complicada para concentrar tensões que podem comprometer o complexo nuclear da garganta e o cerebral.

Quando este contexto fica muito comprometido nas provas da iniciação é como se o iniciado tivesse as suas asas podadas e daí resulta a queda dos anjos. Esta sensível queda na matéria pode ser sentida então como uma desconexão aparente com os mundos espirituais, donde as palavras de Jesus na cruz “Pai, porque me abandonaste?!” A mesma situação estaria contudo presente também na expressão “avatara” enquanto descenso de uma energia superior.

Tal energia é então evocada pelo iniciado para enfrentar os desafios da provação da Cruz, e mesmo alcançando uma liberação inicial que o livra da morte, através de uma iluminação superior, o processo completo de recuperação pode tardar anos ou até ser em muitos casos mesmo vitalício. Esta camisa de força ou este sarcófago espiritual como que imobiliza o iniciado qual uma múmia e ele deve trazer então sobre si as forças vivas da ressurreição, a fim de se safar do poderoso estrangulamento físico e energético a que resulta ficar submetido então.

Parece que como as pessoas não fazem ideia do preço que as coisas têm no mundo espiritual, elas acabam negligenciando a face humana dos mestres, achando que tudo o que é humano neles deve desaparecer, quando na verdade não é assim que as coisas acontecem. Um iniciado não perde coisas, senão algumas debilidades maiores, e adquire coisas novas.

São também pessoas marcadas pelas batalhas que atravessaram, com conquistas notáveis mas também com cicatrizes na alma e também através do corpo. Naturalmente aqui também vem em à luz o mito de Prometeu, que precisa pagar um preço por trazer o fogo dos deuses aos homens –o preço de ficar acorrentado a sua própria rocha, ou de seguir padecendo males físicos desafiadores de toda a natureza, com a sensação de que nada que se faça será suficiente para alcançar uma libertação... Com efeito subsistir no mundo carregando o fardo das provações é um destino comum dos Altos Iniciados, mas tal coisa de certa forma também lhes resulta uma proteção.

É importante lembrar que Prometeu é nisto também um criador. A lenda greco-romana o apresenta como o responsável por moldar o homem do barro. E na versão de Esopo esta argila teria sido molhada com lágrima ao invés de água, para depois Atena lhe insuflar a vida, abaixo, certamente no sentido do valor e da sabedoria.

Prometeu pode disseminar a luz porque teve a acesso a ela e logo se empoderou o suficiente para distribuí-la. Venceu muitas batalhas e pode apresentar ao mundo o fruto das suas conquistas. O simples fato de alguém suportar a contínuas dores sobre-humana sem se destruir de todo de algum modo, já representa por si só algo excepcional –e não raro tais seres são para isto treinados desde o seu próprio nascimento. De modo que neste caso apenas não se pensa nos termos de um “final feliz”, por que estas seriam categorias que tais seres estivessem mais interessados mesmo é em superá-las...

Existe uma lenda medieval pela qual o Cristo por compaixão contraiu todas as doenças do mundo para também aprender a curar todas elas. Descontado a “licença poética” do mito (onde o exagero tem sempre uma função didática), a ideia subjacente soa bastante realista do trabalho dos avatares “expiatórios” da dimensão de Jesus, que corresponde aos Bodhisatwas do Budismo. Existe uma versão popular do Bodhisatwa com mil mãos destinadas a oferecer todo o tipo de auxílio possível que a humanidade necessite, como um símbolo também de pura doação, além de fazer alusão direta ao chakra de mil pétalas da coroa (ou Sahasrara) que desperta nesta sétima iniciação.

O que me lembrava uma situação que Castaneda descreveu sobre um nagual –que é o nome dos mestres toltecas- que conseguiu sobreviver a uma enfermidade fatal tornando-se um iniciado, porém jamais curando-se de todo. Também é conhecida a história do grande curador que não pode curar a si mesmo. Na verdade, por qualquer razão ele apenas não conseguiria alcançar a sua cura completa. Se ele é realmente um curador, é porque terá desenvolvido já grandes habilidades.

Se observarmos as grandes biografias espirituais, veremos que nada ali surgiu pronto, sendo -pelo contrário- o resultado de uma sequência de estímulos e de esforços que, na verdade, também terminam por se revelar crescentes no decurso da vida, posto que um degrau deve sempre levar até outro.

A grande verdade é que somente uma preparação criteriosa, capacita a pessoa para uma jornada espiritual completa, a qual inclui não apenas o progresso na senda, como também a sua conclusão naquilo que podemos definir como yug, a unidade final através da Iluminação espiritual.

Eis que vivemos tempos em que o preconceito e o amadorismo predominam no campo da Espiritualidade. Contudo, apenas quando nos dedicamos realmente às coisas, sem ilusões ou escapismos, podemos conhecer o seu verdadeiro custo e, naturalmente, também as suas conquistas, como coisas reais e permanentes.

Para tudo isto cabe pois adotar precocemente na vida, e na condição de renunciante espiritual, as medidas devidas a todo o principiante sincero que deseja avançar célere e seguramente na senda, como passar alguns anos num monastério e entregar os seus “melhores anos” ao próprio caminho espiritual. Com isto se acata ademais uma das grandes premissas do caminho espiritual, apregoada também nos Evangelhos, que é viver sem se preocupar com o dia de amanhã.

 

1. Sobre isto muitas escolas até concordariam; aquilo que realmente se discute seria antes em relação às grandes massas, se elas realmente estão indo a qualquer lugar ou se estão simplesmente estagnadas.

 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Dzogchen – um Samyama Budista

Um dos problemas mais sérios dos caminhos espirituais avançados é a perda dos referenciais autênticos e o reducionismo dos seus conceitos. Mesmo aqueles caminhos que se postula como sendo feitos para os tempos mais atuais estão sujeitos a problemas semelhantes, como é o caso dos Tantras, na medida em que as suas informações acabem sendo distorcidas por leituras realizadas desde óticas diferentes ou impróprias.

O sistema Yoga mesmo sofreu há muito esta perda de referências, de tal sorte que já não se sabe o que é meditação e menos ainda o Samadhi. De modo que por “meditação” se pratica apenas o Dharana da concentração e por Samadhi se imagina vagos insights de clareza mental cultivada.

O budismo em tese teria recuperado muita coisa a partir da sua própria síntese tântrica, porém mesmo aqui poderia ser otimista pensar que hoje ainda se preserva este conhecimento incólume, posto estar extremamente impregnado pelas ideias do próprio Mahayana.

De todo modo é alvissareiro saber que o Budismo se esforçou por refazer os conhecimentos esotéricos hindus. Muita gente se pergunta então sobre possíveis paralelos entre a Yoga hindu e a Yoga tibetana, imaginando com razão que deva haver muita coisa parecida, e o que é mais interessante é saber o quanto todas estas práticas podem chegar a ser mutuamente enriquecedoras e complementares. O Tibet trouxe muito conhecimento místico da Índia, e ainda agregou elementos de sua tradição nativa, o Bön, entre outros da China, criando assim uma síntese espiritual rica e promissora. Seria útil tecer então algum paralelo com as práticas das iogas hindus e tibetanas, como em relação ao Sistema Óctuplo de Patânjali ou Ashtanga Yoga, abaixo.

1&2.Yama/Nyama = Pakpé Lam Yenlak Gyépa (Senda Óctuple)

3. Hatha Yoga =  Trulkhor (Exercícios ióguicos)

4. Pranayama = Shamata (Interiorização) 

5. Pratyahara = Trekchö (Mente Natural)

6. Dharana = Vipassana (Plena Atenção)

7. Dhyana = Tögal (Clara Luz)

8. Samadhi = Tingédzin (Identificação)

Naturalmente existem muitas técnicas budistas de meditação, e nem sempre elas ocupam o mesmo papel nas diferentes escolas. Aqui oferecemos apenas uma visão muito geral do assunto. 

Dentro do Dzogchen (Atiyoga ou A Grande Perfeição) estão incluídos Trekchö (treinamento da Mente Natural) e Tögal (Clara Luz), que podem ser combinados também com Shamata (Interiorização) e Vipassana (Plena Atenção), tal como proposto pelo Lama Chogyan Trungpa

Deste modo as técnicas Dzogchen podem ocupar um lugar privilegiado no contexto do samyama (a tríade final Dharana, Dhyana e Samadhi) e próximo a ele, incluindo em pratyahara que representa um estágio também muito negligenciado no Yoga. As práticas Trekchö se relacionam muito uma contemplação da Natureza, e Natureza sempre dissemos possuir os ritmos do coração. 

Para nós resulta fácil relacionar o Ashtanga Yoga aos sete chakras, sendo Yama-Nyama preparatórios neste caso. Vale lembrar então que o sistema de chakras budista é sumário. Cabe dizer que nas suas raízes o Dzogchen estava relacionado ao desenvolvimento das práticas de Guru Yoga, buscando assimilar a forma, a mente e a fala do Buda.

Abaixo, ilustrações tibetanas de algumas técnicas de Dzogchen de visualização luminosa.


Técnicas Dzogchen de visualização luminosa, Templo de Lukhang, Tibet

Em Tögal especialmente, existem várias técnicas de visualização, contudo, e se começar a achar que tudo é apenas forma-pensamento destinada a se dissolver na vacuidade, se estará perdendo parte do verdadeiro propósito do exercício da clara luz. Seria como sujeitar um aspecto técnico a um elemento de sabedoria, um invadindo indevidamente o espaço do outro, gerando confusão e castração ao invés da verdadeira dialética que se pretende. É por essa razão que consideramos a interpretação tântrica-budista corrente de yab-yum muito parcial, por ser toda ela muito voltada para o espírito Mahayana, posto que tanto o vazio enquanto “sabedoria”, como a compaixão enquanto “técnica”, representam premissas basicamente mahayanis.

Para nós a verdadeira técnica teria relação com o Mantra (extensível ao Yantra ou Mandalas, ao Tantra e ainda aos Mudras), com todas as suas possíveis aferições, mas cuja importância é de todo modo tal no Vajrayana que se lhe confere por vezes o codinome de Mantrayana. Ainda assim a Escolástica tibetana, com suas raízes mahayanis mais antigas, foi forte o suficiente para eclipsar este fator em termos centrais de yab-yum; quiçá alguns tenham considerado a dada altura o aspecto mântrico como uma espécie de tabu, por ser poderoso e determinante demais em termos de iniciação para ser mais abertamente tratado...

Neste caso, não basta o uso da imaginação passiva, apenas visual e no máximo devocional, cabendo incluir também a vontade e a intensidade para acelerar e refinar a vibração através do mantra, pois se trata aqui de um autêntico processo criador.

Técnicas Dzogchen, estágios Tögal

A nossa grande preocupação é, pois, sempre a perda do autêntico elemento técnico no seio das Escolas de Iniciação, pois é onde se exige o maior esforço interior. No entanto, em comentários sobre transferência de consciência (phowa) nos ensinamentos Dzogchen, dois tipos de transferência são mencionados: 1. Transferência de entrar na esfera de luz clara (Tib. ösal bub juk gi phowa); 2. Transferência de consciência cavalgando a energia sutil (Tib. namshé lung shyön gyi phowa). 

Neste útimo tem-se já conexões com o simbolismo de Lungta, o Cavalo de Vento” (Vento é do Elemento Ar do chakra do coração, onde ocorre a iluminação real) com origem no xamanismo siberiano e que porta as jóias da auto-realização, como frutos preciosos da iluminação. Abaixo em versão tibetana (esq.) e noutra que configura as Armas oficiais da Mongólia.

A essência do tantra é transformar, mais que apenas purificar que é a tendência dos sutras mahayanis. Naturalmente o trabalho com as deidades iradas pode beneficiar no esforço do auto-empoderamento. Existe também um modo de transmissão de poder particular no Dzogchen, que visa a apresentação direta de rigpa (o Estado Primordial) ao discípulo, chamada de rigpa tsel wang ou ‘transmissão de poder da energia criadora de rigpa’, corresponde à quarta iniciação dos tantras, que é a iniciação da fala. Novamente uma brecha para o trabalho superior dos mantras.

De qualquer forma seria mesmo muito grave e lamentável que dentro do tantrismo budista já não houvesse uma compreensão satisfatória das duas formas de iluminações, a sapiencial e “existencialista” -a qual sabemos porém existir- e a técnica ou mântrica -esta sim bem mais sofisticada, complexa e esotérica. Somente dentro desta combinação é que existe realmente yab-yum e a própria Grande Perfeição simbolizada pelo próprio Adi Buda.


domingo, 17 de novembro de 2013

A Escola dos Avatares

A existência física dos avatares se rege por uma série de premissas fixas, que faz deles aquele padrão único que subjaz esotericamente ao conceito ou “título” mais exaltado no budismo acerca dos Budas, que é aquele de Tathagata, significando “aquele que é como os anteriores.”
A categoria “avatar” representa um sub-reino do Reino Hominal, formado por Altos Iniciados que começaram a sua evolução nos primórdios da constituição da espécie homo sapiens, durante as duas primeiras rondas de evolução, especialmente aqueles que, a certa altura, tomaram a decisão de auxiliar a evolução humana em geral e até do planeta como um todo, possuindo hoje a sétima iniciação em diante.
Inicialmente, vale dizer que, aos Budas e Avatares, se estende aquilo que Helena P. Blavatsky afirmou a respeito dos Adeptos, ou seja, “um Adepto não nasce pronto, mas se faz a si mesmo”. Um Mestre não nasce simplesmente como tal (donde o risco de tradições como a dos tulkus), mas deve atravessar todas as iniciações em cada nova reencarnação, apesar dele trazer “de outras vidas” o germe da experiência e da aspiração que lhe possibilita o máximo de aproveitamento na Escola terrena da Luz.
Mas, a rigor –e este é o verdadeiro sentido da frase de HPB, como também assevera Alice A. Bailey-, um Adepto se faz a si mesmo num sentido muito amplo e profundo, pois o trabalho de um Mestre passa por todo um esforço de auto-reconstrução (ou auto-recriação) de veículos após a grave crise de enfrentamento da morte e destruição dos seus corpos na quarta iniciação (também conhecida como “a crucificação espiritual”), prova da qual o iniciado ressurge das cinzas como a fênix graças à iluminação que ali alcança até para sobreviver, daí o fogo simbólico deste mito e também o acróstico hermético INRI pregado na cruz do Cristo, que significa igne natura renovatur integra, ou “a natureza se renova através do fogo”. Esta é a origem dos mitos dos deuses auto-gerados como Min ou “sem pai nem mãe” como Melquisedec.
Para tudo isto chegar a ser possível, uma das grandes características dos avatares é aquela do máximo aproveitamento do tempo vital da vida humana, visando utilizar as melhores forças da juventude para investir no fortalecimento do organismo e no cultivo do espírito, a fim de que possa enfrentar um dia aquelas graves provações com chances de sobreviver, já que a maioria dos homens ainda perece antes esta situação por não haverem realizado um treinamento mais adeqüado.
Novamente, para tal coisa poder acontecer, o iniciado recebe cedo na vida um forte e definitivo chamamento interior, sendo levado a renunciar a tudo o que ele era, é e poderia ser de outra maneira, para desde então dedicar-se única e exclusivamente à busca da Verdade. Então ele trata de se instruir e logo passa a buscar ambientes no quais possa cultivar todas as virtudes do corpo, da alma e do espírito, como ashrams, mosteiros e comunidades, forjando o seu novo ser na busca da saúde, nos bons relacionamentos e nas práticas espirituais.
Tal despertar para a vocação não acontece realmente antes e nem depois da maioridade, como sugerem todas as biografias divinas clássicas, pois se fosse antes disto ele estaria imaturo e criaria problemas para os pais, e se fosse depois já seria tarde demais e ele teria outros compromissos. Assim, entre os 17 e os 19 anos de idade, quando tem início a emancipação da pessoa e a vida de responsabilidade, este chamamento interno ocorre e se consolida, dando início a todo um “romance da Alma” que perdurará por mais de uma década, até amadurecer plenamente. É graças a isto, que os frutos devidos também podem ser colhidos na hora certa, a partir da já citada grande “prova da iluminação” na quarta iniciação, que acontece na primeira “revolução de Saturno” em torno aos 29 anos de idade.
Na verdade, a própria “Escola dos Avatares” é altamente informal e autodidata, identificando-se na prática com a Grande Universidade da Vida... Enquanto pode o candidato a mestre se vale das escolas espirituais terrenas, que naturalmente sempre oferecem limitações para alguém com uma aspiração ardente e ilimitada como ele, que tem toda a pressa de evoluir. Daí ele ficar atento ao mestre interno e também às escolas novas que muitas vezes trazem ensinamentos avançados e novas revelações aos quais raros tem capacidade de realmente entender e de praticar, mas ele sim compreende intuitivamente e pratica com toda a naturalidade.
Tampouco acontece este tipo de demanda interna para pessoas com situações de vida extremadas, de carência ou de excesso, ou seja, onde de um lado não possa contar com algum recurso necessário para se manter e deixando a família em más condições por causa de suas renúncias, e por outro lado onde as riquezas sejam demasiadas fazendo das pressões interna e exterior algo excessivo como para permitir seguir a Senda. Por isto, quando as lendas dizem que o messias ou o Buda era um príncipe, na verdade está falando de uma família de classe média alta, como num São Francisco de Assis. Hoje se reconhece também que os recursos do reino de Lumbini dos pais de Sidarta Gautama, já não eram nada mais de excepcional.
Caberia ainda destacar a raridade dos avatares verdadeiros, apesar de tanta ilusão existente em torno do tema, que já levou alguns a dizer –não sem fundamento- que praticamente todas as escolas místicas consideram o seu fundador como um avatar... Tal coisa deriva da necessidade que as pessoas tem de “endeusar” alguém, até para exaltar o seu próprio caminho, e não raro da ilusão dos iniciados sobre a natureza e a dimensão do seu próprio trabalho, quiçá na ausência de maiores referências dado o vazio de cultura superior reinante.
Nos tempos de crise civilizatória e de renovação espiritual, todo este quadro naturalmente se agrava, originando a multiplicação dos “falsos profetas” de que falam as profecias de Jesus, em meio aos tantos mestres legítimos que também aparecem (muitos deles igualmente “avatarizados” artificialmente) para “preparar o caminho” ou apenas trabalhar a transição. A vinda dos rishis em torno dos avatares é da tradição oriental, e concorda com o grupo de apóstolos que cercam o messias na tradição ocidental.
Um candidato a avatar possui plena consciência das necessidades do seu tempo crítico e tudo faz par suprir as necessidades de cultivar e difundir uma nova consciência. O avatar também é muito mais que um guia comum, mas sim um Mestre-de-mestres capacitado a orientar aqueles que desejam ajudar o mundo a melhorar. Um avatar sabe perfeitamente que “uma andorinha não faz verão”, e ele aspira ardentemente por auxiliar o mundo e tudo está disposto a fazer por esta causa, entregando-se a Deus como instrumento para que o melhor possa ser realizado, para além das capacidades limitadas do homem.
A Lei dos Avatares afirma que Visnhu reencarna sempre que a Lei ou Dharma se perde, vindo assim para restaurá-la e renová-la. Tal coisa acontece naturalmente no final dos ciclos da humanidade, especialmente para as religiões populares, assim como para as civilizações, embora estas, por envolver um ciclo maior, contem também com uma intervenção “reformadora” na sua fase central, como ocorreu no caso do Buda em meados da raça-raiz ou civilização árya.
O Hinduísmo mantém um “registro” do número dos avatares de Vishnu, num total de 22 (com 10 Principais, os dasavatares), o que não difere de outras tradições como no Apocalipse que fala dos “24 anciãos coroados ante o trono”. Podemos dizer que este número está distribuído através de todo o Ano Cósmico de 26 mil anos, como facilmente se deduz da distância-de-tempo entre os dois últimos avatares conhecidos, que são Krishna e o Buda (separados segundo os Puranas por 2.600 anos entre si), ambos “enquadrados” entre os dasavatares associados especialmente à implantação e reforma de verdadeiros processos civilizatórios. Jesus também é reconhecido como Bodhisatwa, ou um pré-Buda/Avatar, que é a categoria dos 12 avatares secundários associados à regência das Eras zodiacais e à instituição das religiões populares.
Reza esta mesma tradição, que falta vir apenas um avatar, dentre os dasavatares ou mesmo dentre todos as 22 encarnações de Vishnu. Se o ciclo dos dasavatares é de 2.600 anos segundo vimos, é chegada realmente a hora do Kalki Avatar, cuja apresentação muito se assemelha ao do Logos do cavalo branco do Apocalipse. Ao quais corresponde também o “aristocrático” Maitreya Buda esperado pelos budistas, cujos “registros cronológicos” acham-se todavia corrompidos, quando dizem que o próximo Buda virá somente cinco mil anos após Gautama, coisa que não merece crédito por se tratar de afirmação isolada, sem origem certa e sem ninguém para sustentá-la com verdadeiro conhecimento-de-causa.
Dentre os principais ensinamentos dos avatares está o Pramantha, os cânones raciais e espirituais para uma época do mundo, também chamados de Lei espiritual ou Dharma-raiz. As instituições existem e foram criadas pelos mestres, unicamente para dar vazão a esta meta de evolução coletiva, sempre em progresso na Terra.
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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O tempo de Maitreya

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Existe certa controvérsia acerca das verdadeiras datas sobre a chegada do Buda Maitreya, em função daquilo que afirmam as tradições budistas sobre Maitreya vir somente cinco mil anos após Gautama -coisa esta que representa, já à primeira vista, um lapso excessivo para o fluxo contínuo dos avatares.

Na acepção do Hinduísmo, por exemplo, nunca se passa mais do que uma Era astrológica (ou 2.160 anos) entre estas Vindas, que tem a missão de abrir tais Eras e também as raças-raízes. Foi assim com os dois últimos avatares de Vishnu, que foram Krisnha e Gautama Buda, havendo um lapso de 2,6 mil anos entre si. Por regra, não chega a haver um espaço tão largo entre as encarnações divinas, que são de diversas categorias. A categoria de “Buda” representa, com efeito, mais que um “avatar comum”, e na verdade corresponde a certo tipo de avatar, que seriam aqueles dez (chamados dasavatares) selecionados como principais, dentre os 22 avatares de Vishnu.

Ora, Krisnha, Gautama e Kalki (Maitreya), estão realmente incluídos entre estes dez avatares principais, de modo que o período de tempo a haver entre Gautama e Kalki, apenas poderia ser idêntico àquele havido entre Krisnha e Gautama!

Estes Budas também correspondem por vezes aos Manus que fundam as raças-raízes, porém de uma forma alternada. Apenas os Budas positivos ou “ativos” são Manus, como Krishna e Maitreya, coisa que transparece nas suas representações iconográficas e/ou nos registros de suas missões, mitos e epopéias.

Já Gautama é um Buda passivo, contemplativo, com missão de reformar e adaptar um dharma solar original que, chegado nesta altura, se acha cristalizado na forma ou na formalidade. A tarefa destes Budas lunares, é fazer a humanidade se voltar uma vez mais para o interior, a fim de que quando chegue o momento de retornar ao mundo um novo Buda solar, seja possível uma nova síntese universalista e a reunificação do espiritual e do material ou a reconciliação da forma e da essência, para que tudo retorne à Unidade original…


É sabido que muitas tradições confluem ou concordam na iconografia do avatar/profeta futuro, e esta atitude de guerreiro espiritual ornado pela espada do Verbo ou da razão superior (Logos), também corresponde em traços gerais à figura de Maitreya, cujo paraíso Tushita possui ademais muitas correspondências com o paraíso hindu (Vaikuntha) e cristão (Nova Jerusalém)

Assim, a primeira coisa a ser dita a este respeito, é que NÃO EXISTE NO BUDISMO UM SISTEMA CRONOLÓGICO REALMENTE ORGANIZADO para ser oferecido, capaz de sustentar certas afirmações avulsas e eventuais que se costuma apresentar…

É bem conhecido dos historiadores, o famoso “exagero oriental” com os números. Em parte, este costume advém de um conhecimento profundo daquelas tradições de sabedoria, acerca das realidades do universo.

Não obstante, o fato é que estamos tratando com isto de ciência, e os Antigos muitas vezes apelavam mais para a Analogia do que para a Lógica direta. Há ciência até para legitimar a própria intuição, que passa pelos esforços posteriores de corroboração e pelo cotejamento com outras informações e com os fatos em si, de modo que nem sempre as coisas são feitas com exatidão.

Os místicos, em especial, possuem uma predileção pela hipérbole e pelo paroxismo, porque isto convém à expansão da consciência que eles têm em mente. Por esta razão, não raro travestem a ciência pelo mito, a fim de melhor atingir a mentalidade popular, a qual nem costuma fazer questão da precisão científica, talvez até pelo contrário, uma vez que, em termos espirituais, a crença é realmente o seu meio…

Uma transmissão de informações, mesmo quando saída “pura” de sua fonte, está sujeita à deformação e à reinterpretação. Às vezes uma mudança aqui, pode trazer resultados ali.

Em muitas culturas se aguarda hoje a chegada de um messias, um buda, um cristo. As datas e as expectativas são necessariamente únicas, porque o tempo da evolução desta humanidade está encerrando e se aguarda apenas mais um Advento para fechar este ciclo cósmico médio ou quaternário, responsável pela evolução da espécie humano-humana ou o homo sapiens. O Hinduísmo é explícito a este respeito, e outras tradições o fazem de forma sugestiva ao tratar do “fim dos tempos” de maneira ampla.


De modo que o tempo de Maitreya é chegado. As visões de místicos arrebatados não era ilusão. Muitos grandes sábios têm profetizado este dia.

Os teósofos disseram que Maitreya virá na sétima sub-raça árya, que é a sul-americana. Bem entendida, esta raça se extingue em 2012, fim de um ciclo racial de cinco mil anos (com sete sub-raças de 700 anos), e também término do Kali Yuga racial. A tradição afirma que o Kalki Avatar virá para encerrar o Kali Yuga, e na verdade é o mesmo que deveria ser dito de Krishrna, que veio num momento análogo de renovação racial, e não que ele veio abrir um Kali Yuga como se costuma dizer.

Na esteira do movimento teosófico, que tentou projetar um messias para o mundo, grandes esoteristas e profetisas anunciaram a vinda de Maitreya ou do Cristo. Merece destaque os nomes de Helena Roerich e de Alice A. Bailey. Esta última comunicou haver um Plano de preparação da humanidade para a Nova Era, a ser encerrado na virada do milênio com a chegada dos Mestres, com destaque para o Cristo.

Se o ano 2 mil não chegou a representar algo definitivo neste sentido, é certo que o 2012 tratará de fazê-lo, por ser uma data vinculada ao próprio Hinduísmo (embora de origem maia-nahua) e advir de uma grande tradição de sabedoria, tratando da transição das raças-raizes. É na verdade a única grande data profetizada da Humanidade, e provém de uma cultura que possuía um domínio único dos ciclos da humanidade.


Da obra "As Luzes do Pramantha", LAWS, Ed. Agartha, AP

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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Os Mistérios da Outra Margem


Os “Mistérios da Outra Margem”, representam aquele universo cultural que existe para além do marco da iluminação, tratando do mundo que começa no Caminho de Retorno, envolvendo também as grandes sínteses intelectuais e as mateses, propostas ou praxis cósmicas baseadas no “conhecimento total” dos ciclos e das energias.

Naturalmente, este quadro tange especialmente aos “deuses”, ou aos mestres de hierarquia maiores, assim como aos patriarcas e aos profetas, que inspiram religiões e povoam os mitos e as lendas mais antigas das nações.

No entanto, também abrange indiretamente uma parte importante da evolução humana, na medida em que as Idades de Ouro e de Prata das Civilizações se acham igualmente influenciadas por estas energias, sendo consideradas aquelas épocas em que “os deuses andavam entre os homens”. Com isto, estas Idades terminam por se assemelhar em parte com os feitos das raças olímpicas, as quais recomeçam em certo sentido agora em 2012, como prescrevem as profecias maias acerca do “retorno dos deuses planetários” (a manifestação da Hierarquia dos Chohans, os Mestres de Raios) na chegada do Sexto Mundo. Se trata também da liberação da iluminação para o Centro da Humanidade, donde a atualidade desta matéria.

Existem períodos da evolução humana, nos quais as hierarquias superiores alcançam conviver com a humanidade com relativa fluência. É esta proximidade que permite a edificação das grandes Idades do Mundo, ou as Idades de Ouro e de Prata, que são consideradas cronologicamente maiores que as restantes, dentro de calendários mundiais como o do Manvantara (o “Dia de Brahma”), à parte toda a superioridade interna que detém enquanto equilíbrio de valores. Por isto, para alcançar a Outra Margem do Rio do Tempo, surge agora a revelação do Dharma de Maitreya, o Buda aguardado, voltado para a conquista do equilíbrio universal em todas as dimensões da vida (ver “Tushita – O Reino da Felicidade”, de Luís A. W. Salvi, IBRASA, SP).

Inclusa neste calendário, existe uma contraparte misteriosa chamada Pralaya (a “Noite de Brahma”), a respeito da qual são exíguas as informações. Contudo, sabemos que cada período corresponde à metade do Ano cósmico de 26 mil anos. O Manvantara ocupa os seis signos-Eras que vão de Câncer (2º Raio) a Aquário (7º Raio), e o Pralaya ocupa os seis signos-Eras que vão de Capricórnio (7º Raio) a Leão (1º Raio). Assim, vemos através dos Raios envolvidos que existe uma manifestação de energias no Manvantara (Raios de 1 a 7) e uma Reabsorção no Pralaya (Raios de 7 a 1).

Ora, os primeiros signos do Pralaya são Capricórnio e Sagitário, regidos por Cronos e Zeus, respectivamente, o que nos fornece os dois grandes regentes do Olimpo, no ciclo dos deuses e no ciclo dos titãs, servindo de base para as chamadas Raças Olímpicas. Depois chega o tempo de Hades, o deus dos infernos associado à Era de Escorpião, e sempre mais ou menos ligado a Marte, o deus da Guerra, que tradicionalmente rege este signo.

Antes de tudo isto, acontece a Criação divina, sob Uranos e Gaia, remetendo pois à Era de Aquário, esta à qual o mundo hoje retorna, prenunciando todas estas coisas além-do-humano. A iluminação é uma realidade que alcança a Hierarquia no ciclo atlante (em Câncer), e chega à Humanidade no ciclo americano (em Aquário), ou seja, duas raças após, que é a diferença de graus entre ambos os centros (aqui jaz o mistério das duas raças ocultas). Assim, a partir dali, a imortalidade se torna uma possibilidade humana e uma meta universal.

Assim, o trânsito para a Outra Margem da Vida, que é a experiência quântica do mundo luminoso e fluído, capaz de avançar sobre as próprias fronteiras da morte, não é coisa que se faça horizontalmente ou apenas através de medidas humanas, porque demanda a presença das forças superiores. Aquele que se aventura neste mundo, arrisca-se temerariamente numa jornada perigosa, porque nele o homem apenas pode transitar seguramente quando acompanhado de mensageiros da luz. Não obstante se tratar de uma experiência essencial, porque ensina sobre as leis maiores da vida e os caminhos da evolução do homem, às vezes para além da sua própria condição.
A frase de Jesus "Passemos para a outra margem", é comumente citada pelos pregadores, pois o convite envolve suas provações. Citemos o episódio:

“E, naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes: Passemos para a outra margem. E eles, deixando a multidão, o levaram consigo, assim como estava, no barco; e havia também com ele outros barquinhos. E levantou-se grande temporal de vento, e subiam as ondas por cima do barco, de maneira que já se enchia. E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos?

“E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança. E disse-lhes: Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé? E sentiram um grande temor, e diziam uns aos outros: Mas quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4, 35-41)

Jesus tinha poder sobre os Elementos, porque ele era um detentor da Quintessência, um Mestre sobre as forças deste mundo, portanto. Naturalmente, o episódio reflete a travessia a sêco do povo em êxodo pelo Mar Vermelho, dirigida por Moisés.

Esta “Outra Margem do Rio” tem relação, portanto, com os Mistérios Maiores, com os mitos vivos, com as grandes lendas e com as virtudes do heroísmo e da santidade. A grandeza é, naturalmente, o universo destas realizações. O coletivo, o universal, o cósmico... enfim, o espírito que norteia a mente dos grandes seres. Os homens herdam por associação este espírito, de início com legitimidade porque atuam a serviço dos deuses ou sob a sua orientação. Porém, na medida em que os Centros se afastam e as Idades do Mundo decaem, mais e mais este espírito se polui e perde legitimidade, até restar somente uma patologia megalômana que leva à criação de impérios materialistas. Contudo, alguns povos ainda têm a sabedoria de reverter o curso das coisas, e renunciar à civilização enquanto ainda é tempo, porque uma civilização sem alma é muito pior do que a volta às selvas.

São as épocas que forjam os mitos e as epopéias. Os deuses às vezes parecem humanos porque eles também têm algo de humanos, e terminam envolvidos com as coisas dos homens. Mas as aparentes “peripécias” dos deuses não os tornam menos divinos e nem menos imortais, porque os iluminados não podem perder a sua eternidade, e dificilmente eles caem de fato.

Mas as ações dos deuses jazem num plano maior e estão sujeitas a outras leis, que são as próprias Leis da Ascensão, na qual mais vale o bem comum do que o bem individual, existindo destarte uma ampla renúncia àquilo que é particular, mesmo na esfera da felicidade divina, como sucede no voto do Bodhisatwa.

Por isto os reis, que são aspirantes à iluminação, também costumam ter atitudes sistemáticas, que colocam o interesse coletivo acima do bem pessoal. Quando a meta ainda é a iluminação, os homens também podem se parecer com deuses, na sua busca pela consciência maior. Pois isto, as esferas muitas vezes se confundem na aparência.

Sabemos que também existem os semi-deuses, como foram Perseu e Hércules, que seriam justamente aquela esfera existente entre a divina (que é a dos avatares) e a humana, representada através do Centro da Hierarquia. Nos mitos, estes semi-deuses nascem justamente da intimidade entre os deuses e os humanos, por vezes apresentada em termos de infidelidade conjugal, coisa esta que pode não passar de simbologia. Os conflitos entre deuses e homens pertencem, da mesma forma, mais à esfera dos mitos, e teria relação com ações por vezes abusivas de cleros organizados.



* Da obra “Vivendo o Tempo das Profecias”, LAWS, Ed. Agartha