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A formação do Bodhisatwa é aquela no qual o Iniciado realiza as suas primeiras renúncias e manifesta as suas iniciações correntes mais ou menos da forma como o assunto é abordado pelas Escolas de Iniciação, culminando na sua iluminação ou nas primeiras iluminações da Tríade Superior.
Não raramente ouvimos dizer que a existência de um Avatar personifica um arquétipo de perfeição. O que significa porém exatamente isto? As tendências materialistas facilmente levam a projetar o Avatar num belíssimo corpo físico e dotado de uma saúde radiante. Nada disto está muito longe da realidade, porém o mais importante são coisas mais sutis. O verdadeiro objetivo dos yogas físicos não é alcançar boa saúde, mas servir para acessar as verdadeiras energias espirituais.
Existem pois alinhamentos pessoais com os arquétipos cósmicos e acima de tudo verifica-se um padrão evolutivo ideal, permitindo o máximo de aproveitamento das experiências e o maior desenvolvimento possível das energias pessoais. Neste aspecto, os estágios de evolução do avatar também refletem com perfeição as etapas evolutivas da própria humanidade, nesta ordem: xamanismo, espiritualidade e cosmificação.
No presente estudo trataremos pois da etapa propriamente espiritual do novo Buda, em relação às suas iniciações planetárias e solares. Já não entraremos porém em maiores detalhes a respeito das iniciações de Maitreya, porque tudo isto tem sido tratado em outros estudos nossos, inclusive nos termos das etapas-de-vida na sociedade védica. Trazemos aqui portanto uma abordagem mais geral do trabalho e da natureza dos Bodhisatwas. E teremos a oportunidade de observar que muitas das ações atribuídas ao Buda na realidade foram efetuadas ainda sob a sua condição de Bodhisatwa.
1. A natureza do Bodhisatwa
Até onde pode ir um iniciado em sua evolução espiritual?! A resposta a isto depende de dois aspectos: de um lado o teor de suas próprias aspirações, e de outro lado as possibilidades e as demandas que o seu tempo lhe apresenta. É isto que destaca em última análise o Bodhisatwa dos iniciados comuns.
O Bodhisatwa é basicamente um Adepto aperfeiçoado e com grande sentido de compaixão. As condições para alguém chegar até a condição de Adepto são bem definidas, estando basicamente determinadas pela capacidade de superar o umbral da quarta iniciação, o qual geralmente traz a morte física para os seus postulantes. As possibilidades de alguém sobreviver para ir ainda além disto já dependerão basicamente das circunstâncias históricas, quer dizer, da necessidade de surgir um Avatar no mundo, sinalizando alguma transição importante de tempos.
E para isto será preciso realizar um perfeito aproveitamento do seu tempo vital, sinalizado por renúncias precoces à vida mundana. O Bodhisatwa é aquele que se prepara assim não apenas para a sua iluminação, mas também para a plena superação da crise da iluminação…
Graças a sua determinação Maitreya galgou todas as iniciações no seu tempo mínimo possível. Sua aspiração era tão forte que por vezes era obrigado a ter paciência para não forçar perigosamente as energias. Então ele também teve que ser paciente e aprender a “apressar-se lentamente” como pediam os ensinamentos. A fim de agilizar os seus processos espirituais, Maitreya foi viver em ashrams assim que teve o seu despertar espiritual, e após certo tempo também saiu deles para atuar no mundo porque as virtudes dos ashrams já estavam solidamente incorporadas nele.
Não é casual que a iluminação dos grandes Mestres aconteça aos trinta anos de idade como testemunhariam várias biografias avatáricas, e que esta idade se relacione ao apogeu da condição biológica humana. Mesmo assim não estaríamos falando de uma condição mais ou menos comum, mas de iniciados que tem realizado já treinamentos consistentes nos chamados três planos de esforços humanos que são o físico, o emocional e o mental. Portanto as tradições primitivas de que os sacrificados devem receber o melhor tratamento antes da sua execução possuem uma base simbólica consistente.
O Bodhisatwa é conhecido como sendo um renunciante por excelência. Aquilo que torna alguém um Bodhisatwa, não é portanto nenhum simples voto simbólico, e sim atitudes bem definidas de renúncia, de consagração e de dedicação ao caminho espiritual. É isto que permite no final das contas um perfeito aproveitamento do tempo para que o aspirante possa alcançar a sua iluminação sob os marcos mais adequados de tempo.
O processo de avatarização acontece na existência dos Grandes Iniciados aos 33 anos de idade, chegando assim na famosa “idade do Cristo”, após 12 anos de esforços. O Arcano 12 do Enforcado pode ser servir de referência para o ciclo de 12 anos de evolução do Bodhisatwa. Os tratados orientais afirmam que Maitreya “alcançará bodhi (iluminação) em sete dias (que seria o período mínimo), em virtude de suas muitas vidas de preparação para o budaísmo semelhantes às relatadas nos contos de Jataka.” Estes “sete dias” devem ser entendidos como sete anos, e isto seria viável também sob certa abordagem.
A cronologia destas iniciações pode ser dividida de diferentes maneiras. Parte do processo pode empregar o símbolo da Tetrakys pitagórica, cujos quatro níveis preparam a iluminação na quarta iniciação, através da compressão do tempo-energia numa espiral piramidal, que corresponde espiritualmente ao aprimoramento e ao avanço das técnicas esotéricas empregadas.
A Tetrakys possui apenas dez elementos (através da fórmula 4-3-2-1 nesta ordem) que no caso serão dez anos de esforços, porém os outros dois correspondem a etapas ou energias de transição como demonstra a Doutrina do Manvantara. Não muito diferente sucede com a Árvore Sefirótica da Cabala, com suas sefirots ocultas. Este padrão também está respaldado pela geometria sagrada do triângulo ou do valor três do Triângulo de Pitágoras e do tetraedro, na fórmula 3x4.
O cerne da Missão do Bodhisatwa é a sua crucificação espiritual, servindo para saldar o carma da humanidade, que é a chamada “expiação dos pecados da humanidade”. O Bodhisatwa não sofre por si mesmo, ele enfrenta o carma coletivo para avançar sobre os limites humanos e abrir caminhos futuros. Parece pouco compreendido neste caso, que aquele que realmente se ilumina não é tanto o Buda em si, e sim o próprio Bodhisatwa. A condição de Buda é apenas um aperfeiçoamento das virtudes capitais do Bodhisatwa.
Após sobreviver às provações da iluminação, um Grande Iniciado seguirá avançando para as iniciações superiores, até alcançar a condição de Bodhisatwa aos 33 anos de idade, quando Maitreya resgatou as conquistas espirituais de sua encarnação anterior como Jesus.
Neste percurso todo, ele pode desenvolver o completo passo a passo das técnicas da iniciação e logo da própria iluminação, com seus acabamentos como Adepto, Chohan e finalmente como Bodhisatwa, pela manifestação súbita de imensos conhecimentos perfeitos frutos de uma clarividência superior. Com tudo isto ele adquire um exímio conhecimento iniciático e restaura os verdadeiros cânones da Iniciação, compreendendo também a natureza dos passos seguintes da evolução humana e planetária.
A biografia de Jesus coloca em destaque as duas idades finais deste ciclo que são 30 anos e 33 anos. Os biógrafos da época não sabiam na realidade o significado esotérico dessas datas, e fizeram suas próprias interpretações. 30 anos é a idade tradicional da crucificação, ou da quarta iniciação, ocorrida sob a Revolução de Saturno, e 33 anos é o momento em que o iniciado alcança a sua sétima iniciação, que corresponde à condição de Bodhisatwa que foi aquela que Jesus alcançou em sua encarnação palestina como vimos.
Porém agora Maitreya vem dar continuidade a esta história divina, visando alcançar uma condição búdica. E com isto os desafios e as provações naturalmente também se renovarão, até onde Maitreya puder e desejar avançar.
2. A salvação das Almas
A Jornada Espiritual de um Buda pode ser precedida por grandes provações, como temos demonstrado em outros estudos, e que comparamos a autênticas experiências xamânicas de preparação e fortalecimento do espírito do candidato às Altas Iniciações. As iniciações verdadeiras também serão anunciadas e preparadas pelo despertar de uma grande vocação espiritual.
Assim, após ter seu grande despertar espiritual na aurora da vida adulta, Maitreya começará as suas iniciações, que poderiam são também associadas aos ashramas que são as etapas de vida da sociedade védica, apesar destas categorias também poderem se expressar noutras fases da vida.
A condição do Bodhisatwa coroa a jornada espiritual de sete iniciações do presente Sistema Solar, também chamado Plano Físico Cósmico no esoterismo. Portanto eles ainda integram as coisas deste nosso universo espiritual.
Neste sentido, sabe-se que o trabalho do Bodhisatwa está relacionado à salvação das almas nos mundos do samsara. Tal coisa poderia ser relacionada às próprias iniciações sucessivas do Bodhisatwa, quando atravessa ele mesmo evoluções relacionadas a todos estes mundos, a saber:
1º grau: Infernos
2º grau: Seres Famintos
3º grau: Animais
4º grau: Humanos
5º grau: Guerreiros
6º grau: Paraíso
É impossível ignorar afinal de contas, que a estrutura onde o Bodhisatwa desenvolve a sua missão principal é idêntica aquela através da qual ele alcança a sua condição setenária, e neste caso o sétimo mundo seria o próprio mundo dos Bodhisatwas ou o paraíso Tushita. De certa forma o Bodhisatwa emerge assim como o núcleo de uma roda, talvez apenas menos poderosa que a dos Budas verdadeiros que reúnem mais energias e alcançam as massas de uma forma mais pronunciada.
Por haver atravessado todos estes degraus e jamais haver se aferrado a nenhum deles, o Bodhisatwa pode se comunicar com os seres que estão a eles presos na ilusão de se tratar o lugar onde se encontram alguma realidade definitiva e verdadeira.
Entre os mitos mais característicos do Bodhisatwa está o de Osíris que, além de retratar toda uma dinâmica de sacrifício e ressurreição, não obstante o seu destino vê-se limitado a manifestar a condição de Deus dos Mortos, quer dizer: o deus das Almas, ou mesmo aqueles que estão libertos das ilusões. O Bodhisatwa é responsável por habilitar o destino comum da humanidade segundo os seus méritos próprios, sendo portanto um deus salvador, muito semelhante portanto ao papel de Jesus Cristo.
Não casualmente neste contexto existe pois o tema do Juízo dos Mortos, da salvação das almas, dos infernos e do purgatório. Importa saber que tais questões apenas são tratadas com idoneidade neste contexto de Bodhisatwa por ser a ele inerente e natural; o místico comum e menos ainda o leigo, não possui a experiência completa dos mundos divinos e infernais para poder avaliar adequadamente tais realidades.
A missão fundamental dos Bodhisatwas é portanto aquela de salvar as Almas, quer dizer; despertar as consciência, recolocando a humanidade nos caminhos corretos da religião e da espiritualidade. E para isto os verdadeiros caminhos de salvação necessitam ser ensinados, o que requer também o saneamento das falsas ideias sobre religião e espiritualidade. O Budismo identifica aqui seis reinos onde o Bodhisatwa deve atuar para remover estas ilusões, como vimos: o do inferno, dos fantasmas famintos, das bestas, de titãs ou asuras, dos humanos e o reino dos deuses.
Em primeiro lugar cabe observar que para exercer todo este trabalho o Bodhisatwa necessita transitar pessoal e soberanamente por todos estes reinos. Em sua ilusão e vaidade os habitantes destes reinos até julgam que o Bodhisatwa é também um habitante dos seus reinos por estar ele ali, quando na verdade a sua presença é meramente providencial e compassiva. Facilmente eles o rechaçariam ao identificar esta condição, como de fato muitas vezes acontece. Cada um destes reinos está caracterizado por paixões, apegos, ilusões e aversões, inclusive religiosos em alguns casos.
Porém o mais importante desta situação é que o Bodhisatwa não tem preconceitos, da mesma forma como Jesus conviveu com toda espécie de ser humano que aceitasse a sua presença. Por isto ele pode transitar livremente por todos os mundos, enquanto os habitantes destes reinos estavam como que presos a eles, em função de suas próprias ilusões, apegos e aversões.
Um leigo pode ser perfeitamente iludido pelas virtudes dos iogues, dos místicos e dos iniciados -o que certamente ajuda bastante para que estes decidam muitas vezes deter-se a comprazer plateias com seus dons. Um hatha-iogue pode realizar proezas imensas de controle do seu corpo físico. Um místico experiente é capaz de exalar atmosferas verdadeiramente celestiais. Um iniciado verdadeiro pode imantar plateias com seus conhecimentos profundos e carisma pessoal. E no entanto para um Bodhisatwa -que conhece perfeitamente as sombras comuns a estes degraus nas formas de luxúria, vaidade e arrogância, semelhante aos Três Venenos da mente de que fala o Budismo-, tudo isto ainda são simples estágios e quem se apega a tais conquistas estará limitando a própria evolução. Provavelmente a raiz desta doutrina está na famosa parábola sobre o Buda e os Sete Cegos.
Aos reinos superiores é ensinada então a necessidade de perseverar no dharma para que seus habitantes não decaiam e possam ao menos renascer em condições semelhantes ou melhores. E aos reinos inferiores é ensinada a importância de cultivar as virtudes para renascer em condições cada vez melhores. E a todos é sugerida que a Verdade está além de todo os reinos manifestos porque ela é a própria Liberdade.
3. Uma visão social
Não seria difícil associar estes seis reinos do Budismo a classes sociais, já que em certos casos as semelhanças são mesmo gritantes -ainda que uma abordagem social mais específica já possa remeter aos trabalhos dos Budas superiores e do Manus raciais.
Partindo dos reinos superiores, o mundo dos deuses relaciona-se naturalmente aos sacerdotes e aos espiritualistas mais refinados; o mundo dos semideuses belicosos é a própria consciência da casta guerreira ou aristocrática, e o mundo dos seres humanos corresponde à chamada burguesia geralmente voltada ao comércio. Até aqui não parece haver muitos problemas, porém nos outros três reinos inferiores este tipo de análise torna-se bastante sensível. Na sequência teríamos o mundo dos animais, cuja associação seria com os proletários ou servidores; para tudo culminar com o mundo dos fantasmas famintos e o mundo dos Infernos, significando subcastas de párias ou proscritos relacionados a camadas muito carentes e até mesmo marginalizadas das sociedades.
Não deixa de ser curioso que os “animais” acham-se em situação melhor do que os fantasmas famintos e os seres infernais, sugerindo o quanto tudo isto contém de alegórico e, eventualmente também de distorções. Nas castas hindus os sudras não estão com efeito incluídos entre o “duas vezes-nascidos, talvez por se considerar que seus hábitos sejam algo “animalizados”.
Com efeito os “animais” como que destoam de um quadro que soa de resto completamente humano, mesmo no caso dos últimos reinos desgraçados. Por isto devemos tentar algumas pistas para pensar em setores da sociedade que, desde certo olhar exterior, poderiam comportar-se como animais porque vivem quase exclusivamente para satisfazer os seus instintos carnais, ou como zumbis famélicos porque só vivem para comer e finalmente como demônios porque se comprazem em fazer o mal e infringir as leis.
É certo que estas categorias sociais acham-se entre as mais oprimidas e injustiçadas. Acontece que as pessoais mais revoltadas com sua situação social imaginam frequentemente que elas nada tem a oferecer para o avanço das coisas, devendo apenas lutar para conquistar bons lugares como as classes melhor posicionadas. Porém tudo isto não passa de uma grande ilusão. Classes sociais de base econômica não são uma instituição que mereça ser mantida por si só. A verdadeira estrutura social deve ter bases espirituais e culturais.
Os Budas sempre trabalham para recuperar o verdadeiro significado espiritual das castas védicas, como parte importante de sua restauração do Dharma universal. Tratam-se tradicionalmente de classes culturais, e que na visão original remontam à primazia dos ashramas ou etapas-de-vida tradicionais, começando pela fase de estudante casto ou Brahmacharya internado num ashram ou centro espiritual donde a ênfase nos mosteiros pelo Budismo.
O Bodhisatwa instrui então todas estas categorias de muitas maneiras, mas é sobretudo pelo próprio exemplo que ele assinala os caminhos de libertação para todos os seres humanos. O Bodhisatwa é plenamente livre para estar onde ele quiser, acontece porém que ele transita pelos reinos para adquirir as informações necessárias mas não se apega a nenhum lugar. A sua jornada cósmica é infinita, por assim dizer, porque a sua aspiração íntima é desta mesma natureza.
O Bodhisatwa tem em si todas as naturezas porque jamais se apegou a nenhuma e foi capaz assim de agregar sempre novas dimensões. A integridade dos Ensinamentos dos grandes Mestres deriva justamente desta universalidade. A jornada do Bodhisatwa é o caminho de um especialista completamente consagrado, capaz de renunciar não apenas ao mundo como também aos frutos de suas conquistas espirituais, a fim de prosseguir até alcançar os mais elevados propósitos.
Um Mestre possui o pragmatismo do proletário, o idealismo do burguês, a coragem do guerreiro e a pureza do sacerdote, além de conhecer intimamente também as penúrias dos perseguidos e dos injustiçados. Um Mestre autêntico não faz distinções e não olha para as aparências. Eis que Maitreya alcançou a excelência em cada uma de suas iniciações, como se fossem doutorados e pós-graduações em diferentes faculdades, orientado pelas mais Altas Esferas espirituais, e inclusive organizando com o passar dos anos grandes bibliotecas especializadas a fim de alcançar estes nobres propósitos.* Contudo ele jamais se deteve para colher os louros das suas conquistas.
O Bodhisatwa encontra então muitas situações para se aproximar destes reinos a partir de suas renúncias e das suas experiências e esforços espirituais, seja no decurso das suas preparações como depois de sua iluminação. O Bodhisatwa é conhecido como o renunciante por excelência, condição esta para iluminar-se sem tardança e se tornar oportunamente um Buda.
Naturalmente o Bodhisatwa também comporta elementos de identificação parcial com todos estes grupos, quiçá especialmente em seu período de preparação. Como renunciante ele é como um sacerdote sem templo, um nobre sem palácio e um burguês sem mercado. Mas também padece de todas as carências dos incompreendidos, dos desprovidos e dos marginalizados. Graças a toda esta complexidade de vida é que o iniciado poderá se tornar um Bodhisatwa, como alguém dotado com uma experiência de vida universal.
4. Cultivando Bodhicitta
O Bodhisatwa por excelência chama-se Avalokiteshwara, “aquele que olha por todos”, o que difere em muito do místico comum voltado para as suas próprias agremiações e castas. Por fim, é nesta mesma linha, em seu simbolismo maior de plenamente iluminado ele é apresentado como Lokeswara, aquele que tem mil mãos para auxiliar a humanidade.
O mistério do Duplo-Chenrezig (que é o nome tibetano do Bodhisatwa Avalokiteshwara) ilustra justamente esta transição entre as iniciações humanas e as iluminações hierárquicas. Até a terceira iniciação o aspirante evolui linearmente, por assim dizer, dentro dos chamados “Três Mundos de Esforços Humanos”. O Chenrezig sentado ou contemplativo ilustra esta fase de trabalhos preliminares.
O pronunciado espírito de serviço e de renúncia movido pela compaixão (simbolizado pelo lótus na mão esquerda de Chenrezig) e a prontidão geradora de um timing adequado de evolução (simbolizado pelo japamala na mão direita de Chenrezig), é que permitem ao aspirante encarnar inicialmente o arquétipo do Bodhisatwa, sob a manifestação do ritmo tântrico dual que nutre as correntes de Kundalini, ou do perfeito equilíbrio dialético simbolizado pela jóia no lótus (que é a bodhicita ou mente compassiva, uma realidade com importantes dimensões esotéricas ou ocultistas também) que constitui o mantra da iluminação (representado pelo coração-de-cristal abrigado pelas mãos centrais de Chenrezig).
Porém na terceira iniciação acontece uma mágica porque um circuito energético fecha-se, simbolizado no fato do triângulo ser a primeira forma constituída do Universo. A partir dali começam então os alinhamentos tríplices que resultam em iluminações. O Chenrezig ereto ou Lokeswara demonstra este quadro, pois suas onze cabeças são como chakras. Tal como na Árvore Sefirótica da Cabala, existem três triângulos em alusão às iniciações hierárquicas da Tríade Superior, para tudo culminar na última esfera alusiva à sétima iniciação de Bodhisatwa, que é uma transição entre a esfera hierárquica (também denominará siríaca) e a esfera propriamente búdica ou divina.
Observe que até mesmo a misteriosa esfera Daath está representada no tema budista através da imagem de uma cabeça intermediária negra de Heruka para indicar o conhecimento oculto.
5. A expiação dos pecados
O Bodhisatwa é ele mesmo o símbolo do “morto” para esta vida apesar de nela se encontrar. E tal coisa também transparece nos padecimentos a que se sujeita em prol da expiação dos pecados da humanidade.
Neste sentido, o simbolismo (realista) do Buda deitado representa uma das poses mais conhecidas de Buda na arte budista. Tal imagem também é conhecido como Buda Reclinado ou Nirvana Buda, representando convencionalmente o Buda histórico nos seus últimos momentos de vida. No entanto, à luz das religiões comparadas, podemos descobrir que o significado desta postura do Buda pode ser muito mais rica do que se imagina comumente, outorgando novos e maiores sentidos ao tema.
Com efeito permite até mesmo precisar certos conceitos. O vínculo entre a morte e a iluminação representa um adendo algo artificial da hermenêutica budista. A imagem do Buda prostrado deveria ser mais evocativa -e apenas para tomar aqui um êmulo histórico- da sepultura transitória de Jesus até a sua ressurreição.
Outra imagem muito eloquente para esta situação seria aquela de Odin dependurado da árvore de iluminação e registrando as Runas sagradas, algo que confronta diretamente a falácia de que os avatares não escrevem. Com efeito escrever se torna praticamente a única forma de comunicação dos Mestres nesta fase inicial de revelações a que tem acesso. A famosa lápide maia de Pacal Votan ilustra novamente o quadro de um iniciado afixado em sua Árvore de Iluminação, tal como se afirma igualmente suceder a todos os Budas, e que corresponde da mesma forma a uma Câmara de Registros. A própria lápide de Pacal representa uma poderosa síntese destes registros sagrados, contendo elementos simbólicos sobre as energias divinas e muitas datações calendáricas. Naturalmente cada cultura desenvolve a sua própria forma de registro de informações sagradas e fundacionais.
6. Religião & Astrologia
Maitreya é hoje conhecido como o grande residente no céu de Tushita em sua condição de Bodhisatwa à espera de sua próxima encarnação como Buda. Na sua última encarnação ele teria sido Jesus Cristo -ver sobre isto em nosso estudo intitulado “A Missão de Maitreya - a Revelação”- , regente espiritual da Era de Peixes, posto que as Eras astrológicas são ciclos regidos pelos Bodhisatwas.
Em termos astrológicos a missão do Bodhisatwa está relacionada à reger as Eras astrológicas. Considerando o caráter psíquico do zodíaco, o trabalho do dharma deve ser libertar o mundo das ilusões zodiacais. Na prática este quadro corresponde à formação das religiões, daí o simbolismo astrológico comum nas religiões do mundo.
A energia psíquica dominante pode ser considerada então uma força destrutiva que carrega a humanidade no seu bojo para alguma direção caótica. A missão do Bodhisatwa é identificar precocemente esta tendência e propor fórmulas para a humanidade conseguir contorná-las através da criação de egrégoras positivas capazes de transformar o caos em ordem.
O caminho para isto é basicamente aquele de prover o equilíbrio das correntes. Assim na Era de Áries regida pelo Elemento Fogo, o Avatar demonstrou a necessidade das pessoas lutarem também contra os próprios impulsos internos e não somente contra o suposto adversário exterior. E em seguida, na Era de Peixes regida pelo Elemento Água, o Messias ensinou que as pessoas não deveriam entregar-se meramente à contemplação e à displicência, sem limitar-se pois à fé e à esperança, mas tratando de organizar o mundo com justiça e caridade. Tal como na Era de Aquário que agora começa com seu Elemento Ar, as pessoas serão orientadas no sentido de selecionar as informações e cuidar de suas mentes para não serem manipuladas pelos meios de comunicação de massas. O conhecimento deverá ser valorizado como base para uma superior realização espiritual e humana, porém cabe checar a idoneidade das fontes para ver o quanto bebem em verdadeiras tradições e sobretudo quando à sua originalidade, quer dizer, a proximidade com os mananciais primeiros da Sabedoria Universal.
Mais uma vez, Maitreya ensina aqui pelo exemplo. A busca da Verdade pode ser considerada um ícone sagrado da Nova Era, uma vez que o conhecimento representa uma aspiração natural na Era de Aquarius. E neste caso o conhecimento necessita ser muito bem fundamentado para conduzir na direção que realmente se necessita. O Kalki Avatar também é apresentado como um apóstolo supremo da Verdade, até porque sua tarefa é aquela de encerrar o Kali Yuga e inaugurar o Satya Yuga ou Idade da verdade.
Tudo isto representa portanto o trabalho de Maitreya em sua etapa como Bodhisatwa, atravessando também tais fases avançadas para alcançar a sua nova condição de Buda, pela qual a promessa de salvação já poderá ser emitida em favor do mundo como um todo e da existência humana na sua plenitude plenitude -e que será tema do nosso próximo estudo.
* Segundo os relatos da famosa obra “Os Mestres e a Senda” de C. W. Leadbeater, os Mestres possuem grandes bibliotecas em suas cavernas ocultas nos Himalaias. Recentemente tem se descoberto com efeito enormes bibliotecas secretas que haviam sido metodicamente ocultadas pelos monges diante da devastação que os chineses fanatizados realizaram no Tibet após a sua revolução comunista.
Para saber mais
Maitreya e a experiência Serpentina
Kalki e Padma - um encontro cósmico
A Missão de Maitreya - a revelação
Maitreya - tornando-se um Buda
Sobre o Autor
Luís A. W. Salvi (LAWS) é estudioso dos Mistérios Antigos há mais de 50 anos. Especialista nas Filosofias do Tempo e no Esoterismo Prático, desenvolve trabalhos também nas áreas do Perenialismo, da Psicologia Profunda, da Antropologia Esotérica, da Sociologia Holística e outros. Tem publicado já dezenas de obras pelo Editorial Agartha, além de manter o Canal Agartha wTV.
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