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O filho do Buda


Raramente se fala sobre o filho que teve o Buda com Yasodhara, apesar do tema ser de amplo conhecimento. Passado tanto tempo dos eventos em questão, pouco se saberia realmente como tudo sucedeu. Neste estudo tampouco iremos tratar muito deste filho em si (ou filha segundo algumas versões), pois sua personalidade jamais adquiriu verdadeira relevância própria, e sim das circunstâncias em que nasceu, nos termos dos usos e costumes da época ou mesmo na sua ausência, tal como o que isto pode haver significado para o príncipe Sidarta, determinando de todo modo o destino da criança e em parte também o de seu jovem pai.

O tema da renúncia do Buda suscita fortes tabus na sociedade e tem inspirado interpretações nem sempre fidedignas. Apesar das circunstâncias do nascimento do filho do Buda seguido do divórcio poderem parecer meramente um triste incidente, tudo isto integraria na verdade um quadro bastante mais complexo envolvendo por um lado grandes confabulações para enredar Sidarta nas teias mundanas, mas servindo também de testemunho sobre a determinação inabalável de Gautama em perseguir o seu verdadeiro destino, a despeito de todos os desafios e tentações que possam aparecer em seu caminho, mesmo os instintos mais poderosos que possam existir na humanidade como são aqueles que envolvem os filhos.

O presente tema envolve portanto muito mais os alicerces morais da missão dos Budas do que propriamente as suas realizações espirituais, desvelando o permanente foco de tensões existentes entre a moral comum e a ética profunda da verdadeira espiritualidade.

O presente estudo oportuniza tratar de aspectos importantes desconhecidos da biografia do Buda histórico, projetando várias luzes sobre episódios todavia obscuros da vida de Gautama. Informaremos ademais sobre a existência da existência de versões biográficas distintas no mundo oriental com certa divulgação na mídia mundial.

Poderia até parecer muito difícil reconstituir os detalhes destes acontecimentos passados mais de vinte e cinco séculos, e no entanto é possível analisar, comparar e sintetizar informações. Novos dados têm sido levantados com o avanço das pesquisas históricas, e além disto as pessoas nunca mudam muito na sua essência no final das contas, por mais que os costumes possam se transformar externamente. 

Este estudo tem como objetivo primeiro lançar luz sobre a Biografia oculta do Buda Gautama e, por extensão, dos Budas em geral, uma vez que vários são os acontecimentos comuns entre as Biografias avatáricas. Estes pontos em comum não representam exatamente “plágios” como por vezes se quer imaginar, porque o principal título do Buda que é Tathagatha, significando “Aquele que é como o anterior”. Esta similitude com efeito pode alcançar até mesmo detalhes, simplesmente porque a própria humanidade segue padrões recorrentes de conduta, e a espiritualidade também determina certos padrões para colocar os seus mecanismos em movimento.

A manifestação do novo Buda Maitreya, permite projetar uma luz definitiva sobre muitas questões todavia obscuras, tornando possível rever com muita fidelidade praticamente todo o ocorrido então.

1. O Reino

É da tradição afirmar que Sudodana fora rei e Sidarta um príncipe. Estudos contemporâneos demonstram porém que a condição principesca de Sidarta não passa de um mito criado por seus seguidores para impactar melhor a opinião pública a respeito da sua condição de vida. 

Seu pai teria sido apenas a liderança de um clã do Sul do Nepal, chamado Sakya, subordinado porém a verdadeiros Reinos da época centralizados na Índia. E na verdade Sidarta foi apenas o primogênito do Patriarca, recaindo sobre ele então as expectativas da sucessão. 

Sudodana vinha de uma casa humilde e desejava agradar a sua esposa Maya a quem muito amava e admirava. Maya era uma mulher culta que recebera uma educação nobre. No entanto aceitara abdicar de uma projeção social para apoiar os interesses econômicos do esposo, a fim de organizarem o seu lar e começarem a ter os seus filhos que Sudodana desejava, uma empresa que tardará não menos do que oito anos de esforços.

Os pais de Sidarta estavam pois obcecados com a ideia da estabilidade e da sucessão, para não perderem os privilégios de que gozavam diante da Coroa e contra os seus rivais na região. Desnecessário dizer que neste cenário arrivista financeiro, a vontade dos filhos naturalmente encontra pouco espaço.

Uma profecia porém ameaçou os planos de Sudodana, ao mesmo tempo em que exaltou as suas esperanças. Conta-se que depois que Sidarta nasceu, um sábio ancião foi visitar o bebê, o qual surpreende o sábio ao colocar o seu pequeno pé na cabeça do ancião. Sudhodana interpretou aquilo como um sinal de soberania do pequeno Sidarta. Talvez com isto o sábio tenha resolvido deixar uma mensagem para o soberano, demonstrando que nem tudo está assim tão sob o seu controle como gostaria de imaginar.

Pegando o pezinho do bebê, Asita declara ver nele os sinais sagrados de um Buda; ajoelhoa-se e faz uma reverência ao pequeno anunciando-lhe o futuro glorioso de um grande rei. No entanto declara não saber se Gautama seria um rei temporal ou um rei espiritual. Tudo iria depender de Sidarta não ter conhecimento de sofrimentos no mundo. 

Sudodana viu nesta profecia tanto uma oportunidade quanto uma ameaça. Tudo deveria ser feito portanto para direcionar as coisas para onde ele achava dever. A verdadeira intenção de Asita era admoestar Sudodana a cuidar bem de todos aqueles que estavam sob o seu comando. No entanto o nobre rei preferiu optar por alienar o filho dos problemas do mundo. 

O jovem Gautama já tinha atravessado muitas dificuldades em sua vida familiar, e até por isto tinha a tendência de aspirar pela paz da vida espiritual. Sudhodana não era o que se poderia chamar de um homem esclarecido, e seu lar um local de tensões e de conflitos. A rainha Maya até tinha uma boa índole, mas também carregava os seus problemas pessoais e era muito influenciada pelo esposo.

Não obstante, talvez o destino já estivesse traçado então. O teor real que envolve a família de Sudodana seria na verdade bem mais simbólico e espiritual, uma vez que sua região integrava aspectos de geografia sagrada e de astrologia espiritual tradicionais em relação ao nascimento dos budas e avatares. É por esta razão que os mitos orientais associam a vinda do Kalki Avatar -que corresponde ao mesmo Maitreya- ao reino de Shambhala. 

2. O casamento

Vimos que quando Gautama nasceu, profecias foram feitas por videntes sobre o seu eventual destino espiritual. Isto porém preocupou seu pai, o rei Sudodana, quem tinha outros planos para o seu primogênito. O severo rei temia que o príncipe se aproximasse de qualquer coisa que pudesse despertar a sua vocação espiritual, vindo a criar então um ambiente artificial de perfeita felicidade à sua volta. Aconteceu também que, segundo reza a tradição, “quando chegou a idade de 16 anos, seu pai arranjou-lhe um casamento com uma prima da mesma idade chamada Yasodhara”, uma vez que nesta altura Gautama já começava a manifestar sinais da sua vocação espiritual. 

Segundo “fontes internas”, Gautama até manifestara precocemente as suas inclinações espirituais, acendendo o alerta no seu pai que passa a fazer de tudo para tentar redirecioná-lo para os seus próprios interesses.

Um casamento com alguém da mesma idade não é ruim em si mesmo, porém tampouco seria habitual na Índia, onde os homens costumam ser mais velhos. Como regra os jovens casais são prometidos entre si precocemente, porém apenas mais tarde é que se casam realmente. Na tradição social da Índia os jovens dwijas ou “duas vezes nascidos” são inicialmente destinados para ashrams a fim de estudar e receber treinamento espiritual, para depois sim casarem-se. As meninas seguem porém em casa recebendo treinamentos domésticos até se casarem, quando o esposo assume o papel de guru e de sacerdote doméstico. 

De modo que aos homens sempre foram dadas maiores oportunidades de viver a sua liberdade e acumular experiências, e sobretudo desenvolver as etapas-de-vida regulares da sociedade védica, como prova da sua condição de nobreza espiritual, pois de outra forma terminariam equiparando-se aos sudras ou servidores. Deste modo, em termos objetivos na educação de Gautama não foi respeitado o primeiro ashrama ou etapa-de-vida de Brahmacharya ou de estudante casto ao qual todo hindu de casta superior tem direito, com medo de que desta forma Sidarta pudesse sentir a sua vocação espiritual despertar e assim passar a dedicar-se exclusivamente às coisas do espírito, quiçá jamais vindo a casar-se e menos ainda a assumir outras responsabilidades “do interesse do reino”. No entanto, consta que mesmo assim a vocação de Sidarta o premia na direção da espiritualidade, a partir dos inevitáveis contatos que a família tinha com a religião (aos quais muito desagradavam Sudodana) e também através de parentes religiosos como eram os próprios avós, que por vezes contavam histórias de religião para o pequeno Sidarta e até lhe haviam presenteado livros religioso sem que os pais de Sidarta soubesse.

Se Gautama fosse mesmo casado com a mesma idade com que se costuma casar as meninas na Índia, que é na adolescência e até na infância, esta atitude selaria de todo modo uma tripla humilhação a Sidarta, a saber: enquanto ser humano, enquanto homem e enquanto nobre.

São famosos na Índia os tais “matrimônios arranjados” pelos pais dos jovens, o que por vezes já pode trazer bastante tristeza, porém neste caso as coisas seriam levadas um tanto além. De certa forma, Sidarta teria sido induzido pela própria família a envolver-se com a prima, pois seus pais teriam apoiado as intenções da menina de aproximar-se de Gautama, trazendo-a regularmente para dentro do ambiente familiar de forma inusual. Como parente que era, Yasodhara já tinha familiaridade com a casa. Bastou então aos pais de Sidarta incrementarem o seu acesso e finalmente arranjarem o casamento, quiçá até mesmo a partir de “fatos consumados” para não poder haver contestação legal ou moral, como de fato parece haver acontecido. Tal conspiração doméstica -da qual a Rainha Maya não tinha todavia muita noção-, integrava e estava no cerne dos grandes esforços de Sudodana de alienar Gautama das realidades do mundo.

Consta que o futuro Buda teria inclusive pedido várias vezes para a menina se afastar dele, porque ele desejava preservar a sua castidade. Apesar de ser um homem virgem, Sidarta acreditava no celibato por fé própria e assim desejava permanecer. Porém a menina sempre encontrava a porta aberta para retornar, apenas porque a família assim o queria. Ela começou a ser convidada até mesmo aos passeios familiares, incluindo acampamentos e viagens, cuja frequência estranhamente aumentou no período. 

O assédio que a menina exercia sobre Sidarta era torturante, não faltando sequer chantagens emocionais. Sidarta infelizmente não tinha malícia suficiente para suspeitar de algum ardil secreto contra a sua latente vocação espiritual. Este seria afinal um comportamento de todo oposto ao normal, quando os pais tratam de zelar pela inocência dos filhos até a hora certa. 

A certa altura Sidarta havia tido um grande despertar espiritual, e a partir dali se tornara um jovem extremamente feliz e eufórico com estas revelações em sua vida. Estes dias ficariam guardados na sua memória como uma espécie de paraíso perdido. Quando ele finalmente foi levado a unir-se à jovem que o assediava, passou a sentir-se um verdadeiro caído, sofrendo de confusão e sentimento de culpa. E quando a jovem engravidou então -o que nada tardaria a acontecer-, ele nem por um momento pensou em outra coisa que não assumir a situação e casar. No entanto todos os seus esforços foram malogrados, e o divórcio tornou-se inevitável.

Alertado por amigos de que poderia estar dando um passo a falso, Gautama chega a declarar a Sudhodana não desejar mais casar. Porém este responde que já havia se comprometido com a família de Yashodara e que portanto a sua palavra deveria ser mantida. Sudhodana realmente desejava atar Sidarta através do casamento, independentemente de qualquer coisa mais.

3. O Nascimento

As cronologias que cercam as etapas da vida do Buda são muitas vezes incertas, dúbias e sobretudo ilógicas e polêmicas. As Biografia correntes afirmam que o filho de Gautama e Yasodhara nasceu quando eles tinham 28 anos de idade. Isto significaria que eles teriam esperado nada menos do que doze anos para ter Rahula, o que soa completamente absurdo. 

É totalmente ilógico Gautama não procriar por doze anos quando tentaram lhe prometer uma vida de prazeres e satisfações. Como também é pueril pretender que um homem permaneça quase trinta anos na absoluta ignorância das realidades negativas da vida. Todo o cenário chega a ser absurdo em suas contradições: Gautama esperaria doze anos para ter um filho, e quando este finalmente nasce o pai decide abandoná-lo. Chega a sugerir que Sidarta estaria meramente fugindo da sua responsabilidade, o que não deve porém se imaginar.

Felizmente também existem biografias budistas alternativas, segundo as quais o príncipe Sidarta na verdade deixou a sua casa aos dezoito anos de idade, o que já faz todo o sentido quando se fala que Rahula tinha apenas um ano quando seu pai saiu de casa, uma vez que nascera quando seus jovens pais recém eram ainda adolescentes. A versão da biografia do Buda comunicada na obra de Ikeda “O Buda Vivo” surge como uma espécie de versão alternativa e esotérica remanescente através dos tempos.

Tudo isto significa também que o futuro Buda foi cruelmente envolvido numa trama doméstica de compromissos morais e sociais, apenas para impedi-lo de pensar mais seriamente em espiritualidade. Para sinalizar o simbolismo do propósito nocivo deste nascimento, o nome Rahula significa "amarras". Os pais de Gautama desejaram meramente amarrá-lo a compromissos através do nascimento de filhos, pois julgavam que chegado a este ponto o jovem já não teria coragem de pensar em voltar atrás, uma vez que o próprio amor paterno falaria mais alto, selando assim o seu destino para sempre.

Contudo o destino aguardava outros caminhos para Gautama. Para a mentalidade laica certas atitudes dos iniciados podem soar chocantes. Apesar de ser recitado por muitos, raros são aqueles que realmente respeitam o Primeiro Mandamento de “amar a Deus sobre todas as coisas” e até consideram tal atitude incompreensível. No entanto, esta situação é comum nas religiões, e não outra coisa é que foi retratado no símbolo da ameaça de Abrahão de sacrificar o seu próprio filho. Para amenizar as coisas, alguns biógrafos do Buda trataram de postergar as suas iniciativas espirituais, gerando não obstante várias incoerências lógicas. 

Após o nascimento de Rahula sua mãe Yasodhara torna-se uma criatura difícil de conviver. A menina não apenas era muito jovem e imatura como também possuía uma personalidade volúvel e inconstante, sentindo-se contudo apoiada pelos pais de Sidarta. Ela também começou ser influenciada pelos ambientes profanos a que frequentava em seus estudos por incentivo dos seus pais, trazendo para dentro do lar de Gautama energias bastante vulgares e negativas. Vendo instalar-se uma crise na sua jovem família, Sidarta solicita aos seus sogros apenas um ano de jubileu, para ele e Yasodhara irem com Rahula viver numa casa de campo a fim de que pudessem harmonizar-se entre si, longe das influências mundanas. Não obstante esta medida também lhes foi negada. 

Acontece que os pais de Yasodhara também ficaram muito decepcionados com ela e estavam determinados que ela tivesse uma profissão e não fosse influenciada por Sidarta. Com efeito ao contrário dos pais de Sidarta, eles sequer haviam aprovado o casamento de sua filha. Os pais de Yasodhara simplesmente não estavam interessados naquele casamento que ameaçava tornar a sua filha também desinteressada pelo mundo. 

E com isto Sidarta já pouco pode fazer do que preparar o seu divórcio com Yasodhara. Seus mundos eram definitivamente irreconciliáveis. Com o divórcio Yashodhara também se apartara da casa de Sudodana, passando a receber uma ajuda dos avós para Rahula.

Nesta altura Gautama ainda não tinha planos para si mesmo. Naturalmente ele amava o pequeno filho e esperava ao menos conseguir influenciá-lo e tê-lo por perto. Não obstante com o divórcio os pais de Yashodhara assumem a guarda de Rahula liberando Yashodhara para estudar longe. Por sua vez, os próprios pais de Gautama como que adotaram informalmente Rahula, passando a tratá-lo como um novo filho, dando-lhe todos os tipos de mimo e levando-lhe por caminhos que Sidarta não aprovava. 

A depender dos pais de Yasodhara o clã Sakya nunca mais veria Rahula. Contudo Yasodhara convenceu os seus pais que poderia ser bom para o menino o convívio com os avós paternos dada as boas condições financeiras de que gozavam. Não seria portanto nenhum exagero dizer que os pais de Sidarta o substituíram psicologicamente por seu filho Rahula, transferindo também para ele os recursos com que antes gastavam com Gautama.

4. A Decisão

Com isto Gautama não tinha mais recursos econômicos para tentar impor a sua própria vontade, pois há algum tempo as suas poucas mesadas haviam sido praticamente cortadas. Tudo isto representou um tiro-de-misericórdia em suas esperanças de ter alguma influência sobre os destinos de Rahula. Sua paternidade estava sendo assim castrada na raiz.

Com isto Sidarta deprimido sente-se completamente à deriva na vida. E começa a buscar novos caminhos para buscar confortar o seu coração.

Sidarta recém entrava na sua vida adulta então, e seu espírito estava inteiramente voltado para a espiritualidade. Houvera manifestado mesmo assim boa vontade para tentar ajustar-se ao casamento. Porém ele simplesmente não podia lutar contra todo o universo e nem mudar radicalmente os rumos que a sua alma desejava. Sequer podemos dizer que Sidarta teve muitas opções. 

E é aqui talvez que devamos focalizar o grande cerne de toda esta questão, ou seja: nas opções que Sidarta realizou naquela altura. Gautama poderia ter tudo no mundo material caso acatasse as suas regras. Seus pais não economizariam esforços para apoiá-lo. O seu filho estava sendo usado de algum modo para puni-lo ou para pressioná-lo a rever os seus caminhos. Contudo ele também tinha a sua vocação espiritual para honrar e fez a sua opção.

Esta é uma prova clássica destinada também aos patriarcas das nações, como sucedeu a Abrahão através do sacrifício simbólico de seu filho único Isaaque. Quando Abrahão consegue provar a sua obediência, a criança é automaticamente poupada. 

Apesar deste assunto todo resultar polêmico aos olhos do mundo, o qual seria até capaz de tentar relativizar as virtudes e as opções de um renunciante, o tema permanece como estandarte e um libelo em favor da primazia da opção pelo Espírito enquan-to realidade maior. Gautama estava inteiramente certo em priorizar a espiritualidade. Eventualmente ele até poderia reunir outras dimensões da existência sob o guarda-chuva do Espírito, não necessariamente nos termos como Sudodana poderia sonhar. 

Aqui temos ademais um importante diferencial entre o homem e a mulher. Uma mulher dificilmente se afastaria do seu filho, e as razões são muitas. Inicialmente pelo próprio apego pessoal à pequena criatura, depois pelo fato da sociedade apoiar esta relação tão importante para a criança, e por fim porque -diretamente relacionado ao anterior- a sociedade veria com muitos maus olhos tal afastamento. Portanto seria praticamente impossível a uma mulher superar tal provação, entre outras quiçá tão árduas ou mais do que estas que também existem nos Caminhos da Iniciação.

Este é portanto o primeiro grande ensinamento sobre a natureza dos Grandes Mestres. A renúncia dos grandes iniciados vai bem além de abdicar de uma vida de luxos e de prazeres, tal como de poder e de prestígio, que o destino naturalmente lhe proporcionou -algo que todavia já filtraria 90% da humanidade. Esta renúncia inclui também resignar-se a abrir mão de uma família pessoal e amargar as dores da perda, sem qualquer culposidade pessoal. Trata-se portanto do primeiro grande sacrifício a ser enfrentado por aqueles que almejam colocar o serviço à humanidade em primeiríssimo lugar.

5. A Iluminação

Não deveríamos precisar dizer o quanto tudo isto perturbou a consciência do jovem Gautama, como o seu senso de moral foi abalado e o quanto o sentido de culpa -por menos que de fato a possuísse- o premiu por levar muito a sério os seus esforços de vida espiritual. Nos Evangelhos Jesus traça caminhos para os divorciados no sentido de se consagrarem seriamente a Deus, e Sidarta saberia disto por simples sentido interno de retidão moral.

Considerando-se que, regra geral, quase não pode haver crise maior do que o divórcio no mundo dos mortais -computa-se normalmente como um stress inferior apenas ao da guerra-, todos os outros sacrifícios parecerão daí menores. O afastamento dos filhos abala como nada alguém psicologicamente, e se a pessoa não tem um norte bem definido pode até enlouquecer, entrar em depressão ou enfermar-se. Como os despertados por Deus tem uma meta importante em vista, esta sensível perda pode lhes conferir uma determinação de seguir os seus objetivos com especial seriedade.

A partir disto Gautama passa a viver uma verdadeira “noite negra da alma”, de depressão, revolta e angústia velada. Decide passar a viver em ashrams e mosteiros realizando austeridades, inicialmente nas redondezas de sua cidade, e depois mais afastados, passando por fim a pregar os seus conhecimentos de forma errante. 

Segundo conta a lenda, quando Rahula cresce sua mãe pede para que dirija-se até o Buda a fim de solicitar-lhe heranças. Este porém já nada tendo, apenas convida o filho para unir-se a ele, e assim Rahula também realiza os seus votos.

Sudodana tampouco teria ignorado o seu filho mesmo depois da iluminação de Gautama, diz a lenda, sempre tentando que regressasse ao lar. Todos os mensageiros que Sudodana enviou foram contudo igualmente convertidos pelo Buda. Passados alguns anos Gautama regressa por fim ao lar paterno para pregar ao seu pai que então aceita os ensinamentos tornando-se um Bodhisatwa segundo reza a Tradição piedosa budista.

Pois bem, nesta situação de Sudhodana insistir na volta de Gautama e este finalmente aceitar, tem-se reminiscências dos primeiros anos de buscas de Maitreya em ashrams e em viagens mais ou menos errantes pela Índia, todavia antes da sua grande iluminação, pois esta ocorrerá isto sim após Sidarta retornar ao seio familiar.

Acontece que a família de Gautama, observando que ele estava indo cada vez mais longe, e que havia aprendido a se virar sozinho, decide convidá-lo então para regressar ao seu seio, temendo quiçá que ele eventualmente desaparecesse no mundo e nunca mais se tivesse notícias dele.

Sidarta decide retorna então ao convívio familiar, considerando se tratar de um convite praticamente incondicional. Pois nesta altura ele também desejava casar-se verdadeiramente, ter uma oportunidade real de constituir um lar ou pelo menos encontrar um amor para si. A família de Sidarta tinha propriedades em diferentes locais, inclusive rurais, que ele poderia eventualmente usufruir para isto. 

E assim Sidarta retoma certa “normalidade” voltando a conhecer outras mulheres em sua vida. A próprio ideia de que Gautama e Yasodhara tinham a mesma idade, pode estar ligada a outras relações importantes que Sidarta teria nesta altura.

Nada disto o impediria de seguir as suas práticas e até de passar a viver processos cada vez mais intensos, pois já houvera dado bons avanços nos anos em que praticara as suas famosas austeridades. 

Até que finalmente se ilumina aos 29 anos de idade, que é a idade-padrão de iluminação dos avatares, e também com a finalidade de sobreviver às provações normalmente fatais do grau de Arhat. Longos foram os padecimentos subsequentes de Sidarta, e nisto ele teve que contar com o apoio resignado da família, pois por muito tempo ele pouco mais poderia fazer do que lutar para sobreviver. 

Sidarta já havia realizado austeridades sob as mais diferentes circunstâncias, e de forma também mais ou menos prolongada, inclusive com ajuda ou a participação de terceiros. Porém agora os seus padecimentos serão bem mais longos e intensos, de modo que não haveria muitas alternativas senão contar com o apoio da própria família de uma forma mais sistemática. Não se trata obviamente de algo que ele planejou, apenas calhou de acontecer desta maneira.

Eis que após a crise de iluminação do Buda, seu pai aproveitou para dar-lhe finalmente bens, pretendendo uma vez mais que ele tivesse uma vida mais próxima do normal, e de fato Maitreya conhece novas parceiras e tem outros filhos. 

A exemplo daquilo que aconteceu nos registros sobre Jesus, os biógrafos do Buda também consideraram muito complicado tratar dos detalhes sobre os seus relacionamentos com mulheres. Para eles bastou mencionar Yasodhara num suposto contexto de renúncia voluntária para passar uma ideia puritana de Gautama. Todo o resto poderia causar confusão. Esse era um pensamento comum dentro da espiritualidade negativa, divisionista e contemplativa da Era de Peixes.

Pelas mesmas razões pouco se falou dos filhos que os Avatares puderam ter tido, tudo isto para apresentar uma imagem distante e mistificada de suas existências. Krishna teve tantas esposas sem ter filhos?! Improvável. Sobre Jesus restaram apenas algumas lendas tardias relacionadas à interpretações sobre o Santo Graal. Acontece que, para as ordens religiosas o tema da progenitura dos grandes Mestres sempre representa uma situação constrangedora, porque pode conflituar com a autoridade espiritual baseada puramente no trabalho dos Mestres.

Outra razões da forte “lavagem moral” sofrida pela biografia do Buda (sem ônus moral para este naturalmente), estaria na intenção de incrementar o monasticismo que desde cedo caracterizaram as práticas budistas, ainda que desde então tem florescido também as crenças laicas da Terra Pura. Seguramente a organização das biografias budistas passaram muito pelo crivo particular das ordens responsáveis por elas, em especial o próprio Theravada enquanto corrente mais antiga e com nítido perfil monástico.

Paradoxalmente Buda e Jesus também estiveram em mosteiros, porém considerou-se inapropriado reconhecer que outras ordens poderiam ter tido a sua importância na formação do seu pensamento, por mais evidente que isto pudesse soar. Quando os biógrafos consideram que alguma informação é inoportuna mas não querem mentir a respeito, tratam pelo menos de omitir tal informação, daí temos as tantas lacunas, contradições e simplificações presentes nas biografias avatáricas. 

Esta nova fase familiar de Gautama duraria uns 14 anos, quando outras crises na família e novas missões levaram o Buda a renunciar novamente a tudo e retornar às suas peregrinações. Nesta altura Gautama já era um Bodhisatwa perfeito transitando soberanamente pelos mundos do samsara. Sidarta chegara a isto trocando uma vida de luxo por disciplinas e austeridades até alcançar a sua iluminação. Contudo esta nova renúncia lhe proje-taria a uma verdadeira condição de Buda, permitindo à sua consciência abarcar também as grandes realidades planetárias com plena envergadura, e com isto alcançar finalmente todos os seus superiores objetivos. Não obstante este já seria tema para um outro estudo.

Até por isto nunca acontecerá uma reconciliação formal entre Sidarta e Sudodana. Sua mãe Maya, porém apesar de também incomodada com tudo isto, sempre deu o seu apoio naquilo que pode reconhecendo a sinceridade da vocação espiritual do filho. 

Por anos a família ainda manteve a esperança de que Gautama conseguisse se posicionar social e economicamente. Porém com as grandes crises de saúde que vieram em sua iluminação, a situação mostrou-se bastante incerta. Como vimos Sidarta se ilumina sob o amparo involuntário da família, pois ele não teria mesmo outras alternativas. Aqueles que imaginam que a iluminação é apenas um mar de rosas, também ignoram o que é a verdadeira iluminação e estão confundindo com conquistas menores. Largo é o testemunho da grandeza deste desafio, porém muito esforço tem sido feito também para minimizá-lo. 

Com efeito essa situação ensejaria a oportunidade de tratar de uma grande lacuna da biografia do Buda, naquilo que diz respeito aos detalhes dos acontecimentos da sua iluminação, que geralmente envolve acontecimentos muito complexos, mas que são tratados geralmente de maneira tão somente elíptica e simbólica, como sucede em torno da questão da árvore sagrada da iluminação cercada pelas tentações e ameaças que recebeu o Buda. 

A visão de iluminação que terminou sendo atribuída ao Buda seria meramente aquela superficial dos místicos, e não a verdadeira iluminação ocultista com seus efeitos transcendentais sobre o indivíduo e até mesmo toda a atmosfera do planeta. Acontece então que toda a biografia do Buda foi reconstruída a partir de visões menores visando ajustar-se na medida do possível aos tabus sociais vigentes. Em função disto, por muito tempo várias versões concorreram entre si, até que se criaram os cânones pali quase quinhentos anos após a morte do Buda, provavelmente para atenuar as predições do Buda de que por esta época o Dharma já terminaria por se perder. Esta biografia “oficial” do Buda resulta porém extremamente minimalista e estereotipada, sujeita a reducionismos, distorções e simplificações.

6. Conclusões

Porque é importante trazer todos estes fatos à tona?! Acontece que estes acontecimentos são relevantes mas nem seriam tão raros de acontecer como se poderia pensar, e algo muito semelhante também aconteceu em tempos recentes com o novo Buda, conhecido como Maitreya, sendo inclusive esta referência que permite hoje conhecer mais a fundo os fatos antigos que envolveram o jovem Sidarta.

Isto é importante porque as coisas do passado sofrem deformações com o tempo, seja em função dos mitos com se busca cobrir os fatos ou mesmo por simples interpretações equivocadas das coisas.

Ou seja, o cenário mítico no qual as biografias divinas são aureoladas já traz uma capa desafiadora de símbolos e de parábolas, mas não chega a provocar verdadeira distorção e, pelo contrário, até auxilia muitas vezes a perceber melhor a verdadeira magnitude dos acontecimentos. Não obstante, em cima disto ainda existem as interpretações tardias onde distorções importantes podem ser verificadas. 

Desde o começo o Budismo moveu uma grande campanha histórica contra o sistema de castas, e uma das razões foi justamente porque suas bases espirituais de ashramas ou etapas-de-vida não estavam sendo devidamente respeitadas, inclusive privando os sudras de acesso a elas. O Buda também pode conhecer em sua própria vida o quanto este sistema podia ser manipulado pelos poderosos em favor de causas pessoais e de interesses menores.

É fato que a espiritualidade escolhe os seus porta-vozes em famílias nobres, porém isto não significa que tudo ali será como um mar-de-rosas. Em muitas tradições antigas, o lar de origem dos mensageiros é um lugar de grandes reveses e conflitos. Isto vemos desde as origens com Cain e Abel, assim como a trágica família de Osíris, passando depois pela casa de Krishna e também de Rama, assim como mais tarde de Buda e São Francisco. De modo que esta situação parece quase mais uma regra do que uma exceção. 


Veja também

A Lenda do Kalki Avatar

Maitreya e o Xamanismo


Sobre o Autor

Luís A. W. Salvi (LAWS) é estudioso dos Mistérios Antigos há mais de 50 anos. Especialista nas Filosofias do Tempo e no Esoterismo Prático, desenvolve trabalhos também nas áreas do Perenialismo, da Psicologia Profunda, da Antropologia Esotérica, da Sociologia Holística e outros. Tem publicado já dezenas de obras pelo Editorial Agartha, além de manter o Canal Agartha wTV.  


Kalki and Padma – a cosmic encounter

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The existence of the Initiate is completely superior to that of the layman in spiritual terms, and this is also reflected in his conjugal life. What greater mysteries do the sacred hierogamies, the pairs of Buddhas, gods and avatars of all times conceal? The subject is certainly rich and is expressed on many levels. Here we will deal with all of them and especially with the most direct and impactful one in the lives of the great divine Envoys, which is the experience of sublime perfect Love.

This is yet another great revelation that the manifestation of the last Avatar brings to humanity, through the story of Kalki and his great love Padma, announcing the opening of new paths of spiritual achievement and providing answers to some of the greatest enigmas that have plagued human culture for a long, long time.

1. Preparations

From a very young age, the future avatar Kalki was a romantic spirit who fell in love easily. Nevertheless, he was shy and reserved, remaining chaste for a long time, while the interest in the mystical experience grew more and more in his soul.

As he approached adulthood, when women began to approach him with explicit intentions, his natural idealism made him dream of more modest girls raised in the interior of the lands. His first experiences with the opposite sex would only confirm his fears. However, as is common in wealthy families and royal houses, the parents of the young Kalki born in Shambhala also had their own plans for him, which did not help Kalki's real inner purposes of a simple and elevated life, which were slowly maturing in his soul without him even realizing it.

Nevertheless, then the true awakening of his spiritual vocation occurred, interrupting his youthful dreams, perhaps even in a providential way. Now Kalki wanted to take his spirituality seriously, and to this end he decided to begin a long experience of retreats. And so he will spend years in ashrams dedicating himself exclusively to the cultivation of Yogas and studies, as is in fact the correct and natural order of things in Hinduism, whose first stage of life is called Brahmacharya, that which is consecrated to God through chastity and study.

During this journey, Kalki had the opportunity to let his soul blossom in many ways, both through disciplines and spiritual service, as well as through his fellow seekers, through the cultivation of the arts and also through his own intimate contact with Nature. 

At a certain point, however, Kalki felt that all of this was indeed very noble and wonderful, but that it was enough for him: he had other commitments to attend to in his life. The desire to have a companion then grew within him again. His heart was ready to assume the status of Grihasta, the second stage of life in Hindu society, when the initiate establishes a home as a domestic priest. At this time, his natal family invited him to return to their midst, and Kalki decided to accept the invitation. 

He then met some young women close to his old family circle, discovering that he had indeed become a real man. Not satisfied, however, he continued to foster his inner life, investigating mystical places and visiting his old masters. And it was precisely on one of these occasions, when his most revered master was present at an ashram where Kalki had lived, that he met the one who would be his great love. Her name was Padma, also known as Padmavati, which means “she who is like the Lotus”.

2. The Meeting

Kalki and Padma were initially very captivated by the presence of the master and were busy with the tasks of the local group. However, when they met, everything suddenly changed as if by magic. Cupid's arrow struck them both powerfully, and signs began to appear. In a very symbolic way, it happened that in a game of Secret Santa with dozens of participants, Kalki and Padma accidentally picked up each other's names, which is a very rare occurrence...

From then on, they moved away from the group to talk to each other alone. They discovered that they had many things in common, including personal tastes and dreams, including the great similarity of their personal horoscopes. And so they anticipated their departure from the place to go away together. They somehow felt that they already had in each other everything they really needed from now on. All they had to do was water that small seed of love that had awakened between them, born under the blessings of the beloved master.

Who was this mysterious, charming and lovely young lady named Padma? Considered to be an incarnation of Lakshmi, wife of the great Lord Vishnu and the manifestation of wealth, beauty and grace, Padmavati is also often seen as a reincarnation of Sita and Radha, who were wives of Rama and Krishna. She was a small creature, which is why people often affectionately called her Laghupdma, “Little Lotus”. At the same time, she was very magnetic and captivating; She knew how to smile with her eyes and her speech was melodious, which is why Kalki also called her Lilavati, which was Radha's name when she smiled, meaning "funny, charming, graceful". Finally, she also knew how to be smart, astute and efficient in everything she dedicated herself to.

Kalki and Padma soon got to know each other intimately. As a long-proven Initiate, and given his previous experiences, Kalki felt quite confident as a man. However, with Padmavati he found a challenging situation, a mix of happy and frustrating situations. Everything seemed perfect between them, but something didn't seem to be right in Padma's personal rhythms.

To his surprise, he discovered that he loved someone with whom he had certain intimate difficulties. He was confused by this and began to look inwards and frequent mystical places in search of peace, wanting only to understand what could be happening to them after all...

Kalki still didn't know what to do, but he was persistent and determined to solve the problem. So he began to pray fervently to Shiva, who was the god with whom he had been most intimate until then. In response, Mahadeva (who is another name for Shiva) tried to point out that Padma was a good girl from the interior, just like Kalki was looking for, who had even been practicing disciplines and receiving some spiritual training, but everything was still somewhat incipient.

Shiva observed that Padma's karma could still harbor some atavistic obstacles, and she had never had any great experience in the ashram to better purify her soul. In the last resort, he concluded, hiding a smile, Kalki would have a few last tricks up her sleeve, as he knew very well the resources to open very stuck doors of the Soul.

Kalki listened to all this attentively. Shiva's words were wise. In his years in the ashram, Kalki had been able to observe the transformative power of disciplines, not only in himself but also in people with real spiritual problems. Obsessors can be powerful, but discipline really bores them, since what they really want is fun, and so he ends up expelling them one by one.

Kalki had been curiously investigating the mysteries of witchcraft since his adolescence, so he was well aware of its effects on people. What he did not know was how much more he would soon be forced to learn in a very objective way as a result of his simple efforts to achieve a deeper and more satisfying love with his beloved Padma…

Unfortunately, many women are born with or acquire negative spiritual marks, and it is quite difficult for them to remove them on their own because they do not have a good system of disciplines specially designed for them. Many end up being associated with witches or worse. Even in ashrams open to women, Kalki rarely saw any girls there; even men were few and far between, and Kalki regretted all this.

So he was worried about the idea of ​​having to wait years for Padmavati's soul to be ready for love. On the other hand, he was there with all his spiritual experience. He decided to propose to Padma that they start to visit the ashram more often and do spiritual practices together, to gradually refine their souls and tune them into each other. In order for the practices to reach their full potential, it would also be important to reduce intimacy during that period. Little by little, Padma understood the situation and they reached the necessary agreements. And with this, Kalki would also be fulfilling his duties as a Grihastha or domestic priest from the highest levels of spirituality. 

Kalki then thanked the old Shiva for his precious advice, whose wisdom is incomparable. Mahadeva therefore knew perfectly well what he was saying, not by chance. Shiva is also known as Mahavaidya, the Supreme Doctor. However, he answered her solemnly with these words:


“- You don’t need to thank me, young Kalki. Just know that, in the same way that Masters take on part of their disciples’ karma when they decide to learn – and that is why they become Masters – great lovers can also do the same when they undermine the stony walls of karma in the search for love.”

Kalki listened again attentively to these enigmatic words, but like any man in love, he preferred to just go ahead with his plans, confident in his own good intentions. In fact, he even saw encouragement in those profound words of Shiva, without imagining all their possible implications. True love sometimes brings some karmic challenges, and can play tricks and even seem disconcerting...

3. Heaven

And so their yoga evolved step by step, and Kalki also had the opportunity to continue advancing in her own practices. She also noticed the advances in Padma’s consciousness, the increase in her ability to enter states of great peace and depth.

From time to time Kalki had the opportunity to gauge the progress of her intimacy with Padma. Finally she understood that all this could take a long time. And she decided to use some auxiliary resources that she knew, following the suggestions of Shiva, whose approval she knew she had for this, because Mahadeva himself had prescribed Soma to her in the past. Shiva is also called Somanātha, the “Lord of Soma”.

In Hindu mythology, in the primordial rite called Kshira Sagara (“coagulation of the primordial Ocean of Milk”), Lakshmi emerges bearing Amrita through the cosmic activity carried out by the forces of light and darkness together under the direction of Vishnu. Thus, everything indicated that Kalki was merely following a pre-established cosmic script to achieve a great revelation. The Amrita brought by Lakshmi would be the fruit of pure love and the light of enlightened consciousness - although at this point Kalki naturally did not imagine the complexities that all this could represent. Shiva, however, knew what he was doing and had prepared Kalki well for this challenging situation.

He would also be very careful with Padma, using only what was necessary for her to achieve a full experience of Presence in the here-and-now. He would then limit himself to administering medicine to Padma, as he did not feel the need to apply it to himself as well. His beloved was already advancing in the yogas and in her capacity to expand her consciousness. The objective was to give Padma the little push she needed to finish overcoming her remaining karmic obstacles in order to give her greater access to her Soul. 

Kalki would even use these resources reluctantly and only because he could no longer see any alternatives; completely overcoming karma and dense consciousness always represents a very complex challenge, because every human being tends to accumulate a lot of karma due to their ignorance of the true Laws of Evolution. Kalki had long ago overcome the personal need to resort to external expedients, as he had become a great expert in the most advanced yogas - he had even decoded the original system of the Nine Yogas. Now, however, the situation was different. There was another soul beside him who needed help, and he was very familiar with all the paths of medicine. These were not ordinary people seeking vulgar experiences, but rather a couple of initiates pursuing true love. There was therefore sincerity, honesty and wisdom in their attitudes.

The young couple then arranged a new meeting and the atmosphere was created for it, a mix of ritual and... marriage perhaps?! Soma was prepared and administered properly, under the blessings of Shiva. Padma's experience was smooth and calm, Kalki guided her through the necessary steps and she soon found great peace and tranquility, feeling fully present and relaxed.

At that moment, they both naturally found themselves in a great state of peace. Neither desire nor anxiety moved them then. This was a good sign. Kalki already knew very well how much Soma could enhance sensations. Now his goals were even more noble, even without being completely clear about it. However, he was not at all prepared for everything he would experience, in terms of happiness and suffering, in this single encounter of true love revealed...

When Padma was completely relaxed, awake and free from anxiety, Kalki felt that it was time to seek an approach. So Kalki gently took Padmavati's arm to kiss it - just her arm. But the sensation that this gave them both was simply astonishing, because it was exactly like a complete and finished ecstasy, although without the external contribution of ejaculation. Kalki then tried to kiss her mouth as well, with equally sublime and transcendental results, but without forcing any excitement. He thus discovered that, in a mysterious way, there was no need to "make love" with Padma, because it was as if the love was already ready and finished between them... 

This surprising revelation was totally revolutionary in its implications. He had never imagined that such perfection could exist, and he had never even heard of anything like it. Yes, he had heard of the possibility of separating ecstasy and ejaculation, and he had even had some tantric experiences in this direction; but everything he was experiencing now, without the need for control or any effort, but simply sailing full steam ahead in the flow of the Universe, was something completely different and exceptional.

It was not desire that was being stimulated in this way, but rather the pure heart, or consciousness, or love itself. In fact, it was Padmavati, very shrewd and intelligent as she was, who first expressed their feelings about what was happening, when she said: “Just see how we are both feeling one thing…” It was an attempt to express the perfect communion of consciousness, perception and Being that they were experiencing in those moments of superior intimacy. In fact, the mystery of the Single Soul that Plato spoke of, which exists in relation to soulmates, was fully embodied there, when both were ecstatic and saw their unique Being finally blossom in its fullness...

It was paradise itself that was thus reopening its doors for them, the redemption of original sin and the recovery of the Tree of Life, finally giving meaning to all the greatest mysteries of love and sexuality... That sublime experience, which was also a great achievement, came as an unexpected prize in the life of this great romantic and seeker of earthly paradise that was Kalki.

4. Hell

However, destiny, thus constrained, would also exact its price, and it would not be small. Lo and behold, right after Padma made her simple observation, the situation was reversed once again, and the gains obtained through the revelations obtained were then turned into serious and irreplaceable losses…

The use of the ancient resources of magic and witchcraft has the power to open the doors of heaven and hell by moving ancestral barriers of human karma. Few are able to successfully enter these abysses - and let's not even talk about this case with impunity.

And so, in the same way that a heavenly door had opened before, now another hellish door was thrown open to swallow the innocent couple. Once again, nothing was understood, only that a void the size of the world was swallowing the couple, also in the same feeling, but now of anguish and oppression. What was happening after all?! Had the couple activated some curse? Broken some ancestral taboo? Could they be like sorcerer's apprentices playing with powerful unknown forces?! How can we understand such a sudden invasion of fears and uncertainties that are also unknown?

Confused and astonished by all that, Kalki walked away, disappearing into the darkness of the night, unaware of what awaited him from there. On his way back home, he began to find immense spells scattered everywhere he went. The neighborhood itself can testify that the sorcerers would even go as far as the garden of Kalki's house to place their spells there. And all of this hit his Soul hard, despite having already achieved many powerful initiations.

The next day, after a sleepless night fighting demons, Kalki looked for Padma, but she had already surrendered herself into the arms of the first man she found, so to speak. This was how his fear and despair had tried to seal a rupture, as he no longer wanted to see Kalki again, whom he began to accuse of being harmful to him. Nevertheless, it was upon him that the persecutions of hell continued to fall. Behold, all of his illnesses worsened and the ones that were latent appeared once and for all. Kalki found himself in a short time mortally prostrated, ending up completely ill and desperate on an agonizing bed.

Had this been a common situation, the victim would have promptly succumbed, as is the rule for all those who undergo the Arhat initiation that Kalki now knew in this dramatic way. However, he was not just any initiate - quite the opposite; he had undergone rigorous yogic training for many years, and the sublime experiences he had recently had redoubled his motivation. Fear was a situation that Kalki had known little about throughout his life, but now he was determined to face even the greatest demons to save his life and try to free his beloved. Perhaps much more if necessary. Kalki was an incomparable warrior who had rescued the greatest lost secrets of love in favor of the redemption of humanity. Such experiments also represent an anticipation and a seeding of the realities that humanity will experience in a normal and ordinary way in a long time. Since the current fourth round, this experience has become increasingly known, although still restricted to a few initiates. Until the fourth cosmic year arrives in almost thirty thousand years, when it finally becomes one of the great natural bases of universal culture.

Kalki paid the necessary price to know the deepest arcana of love, because she had enough merits, wisdom and determination to do so, from an entire existence passionately dedicated to the knowledge of Truth.

Her ability to survive the consequences of her divine boldness only corroborated her intrinsic divine spiritual power. Eternity was now her testing ground, for she had had a great experience that transcends time. Thus she became like a new Rama facing the greatest demons and a new Orpheus descending into hell in search of his lost beloved.

5. Enlightenment

Kalki then begins a solitary struggle against the dark forces that mercilessly haunt him, which will reach its peak when he flies to the gompa (temple) of the main sorcerer who commands this entire persecution, thus repaying the siege that he had ordered his henchmen to carry out near his home.

From then on, it will be only efforts to survive, but effective ones culminating in the achievement of his enlightenment, in order to gain access to very powerful energies, capable not only of driving away once and for all the evil spirits that were persecuting him, but also of initiating his own cures. To survive all this, Kalki needed to become completely enlightened, as he had prepared himself for this supreme achievement during his years of strict dedication to Yoga. Kalki was 29 years old at the time, which is the cycle of Saturn, and this great achievement of his had occurred within the traditional time frame of the enlightenment of the Avatars.

Other spiritual consolations continued to occur after this, such as the achievement of Adeptship when Kalki definitively awakened his inner vision, gaining access to the traditional knowledge of the great Hierarchies. For a great lover of knowledge as he was, this represented a true triumph.

Kalki and Padmavati would only be together for two years on this occasion. After this, he remained alone for many years, only worshipping the memory of his beloved and the memory of that sublime love that had once blossomed between them like an illuminated lotus. The wisest and most beautiful women wanted to get close to Kalki at that time, since he held great wisdom and spiritual authority, but since he now knew the meaning of a unique and perfect love, he felt it was their duty to follow only him, consecrated to him.

Nevertheless, his pains and sufferings were still very great, since his enlightenment served little more than to help him survive and to produce the necessary higher knowledge. Then Brahma decided to send him an incarnation of his own wife Saraswati to serve him as companion, with sweetness and dedication. She was a virgin of thirty years old - an age that had become symbolic in Kalki's life - a true vestal consecrated to God called Maya. Her great purity and idealism managed to captivate Kalki, who thus finally accepted someone back into her life. This Dakini brought the energy of abundance and comfort in that difficult moment of Kalki's life, just as the magician Isis had done in the life of the dying Osiris.

Together they learned and learned many new things. However, after a few years, Kalki returned to dedicate herself exclusively to spiritual work, seeking to consolidate her knowledge in the world. A few years passed, and she was once again attacked by pain and loneliness, also as a result of her renunciation of Nirvana, and now it was Shiva who sent her a yogini to keep her company, an incarnation of his wife Parvati. Some have also linked her to Ramaa, who is Kalki's other wife, also associated with Lakshmi as an expression of wealth and beauty. With this, she was able to provide Kalki with all the comfort and consolation that her renunciant body and soul, suffering from so many battles, could possibly need.

In the biographies of avatars, there always appear Initiates who have relationships with the stages of evolution or consciousness of the Master himself, such as the Buddhist Taras or the Hindu Devis. For this reason, Krishna is attributed three wives, and Kalki two. However, these statements may not be literal; It could be hasty to see such references as an expression of bigamy, since they are rather sequential relationships and always of transcendental importance in some way. It is necessary to contextualize such situations within the lifelong monogamous Tradition, where the successive relationships of the avatars acquire, in contrast, a special legitimacy, since each stage of their existence is very much like a new life.

The presence of the Sacred Feminine in avatar biographies often plays a decisive and prominent role, especially in relation to transcendental true Love. It is enough to recall the lives of Osiris, Orpheus and King Arthur. In the Ramayana, Rama's wife, Sita, who had been captured by the wicked Ravana, conditioned her release on Rama completely destroying the empire of Evil that the Devil had built. Something along these lines can be found in the story of Helen of Troy. However, the feminine also plays a prominent role in the lives of Krishna and Jesus. Tibetan Buddhism is generous in its representation of the presence of Taras and Dakinis in the lives of yogis, and the Devis of Hinduism are no less important.

6. Vaikuntha

Despite many predictions, Kalki and Padma would meet again at a much older age. Many important things had been left in the way, and Kalki had always dreamed of this day, no matter how long it might take...

Thus, after separating, Kalki and Padma were thirty years apart, only to meet again under the influence of Shani (Saturn). Now Padma had matured emotionally and was truly a woman. It was very positive for both of them to experience this new reality, because in a way it was as if they were meeting each other for the first time. In some way, Kalki's sufferings also helped to alleviate her karma, as they do for all of humanity.

The first meeting between Kalki and Padmavati was like a great comet that shone in the sky of their lives, transforming them forever. However, much pain remained from that traumatic separation and its consequences. So their reunion served above all to pacify their souls and heal some wounds. At that point, it mattered little to them to return to the past. Kalki had grown accustomed to cultivating a “platonic love” for Padma. It was a way he had found to feel a little more complete.

After all, it was like saying like Jesus: “Father, let Your Will be done, not mine.” Kalki opened all the paths for the liberation of humanity and lived only for and by her Mission. Kalki had understood that each second of deep love with Padma would be like an experience accumulated over eons, and for the same reason the sacrifice of this sublime experience also served as an atonement in favor of the redemption of the world for many eons… Therefore, there could be no more complete renunciation of Nirvana than this. If such was the will of the gods, he was willing to make all these incomparable sacrifices for the salvation of humanity. Was it written in the stars that things should happen this way?

After his enlightenment, Kalki developed much sublime knowledge, including a perfect Science of Soulmates, rich in information about Esoteric Psychology, to be passed on to future generations so that Vishnu's paradise could one day be embodied on the face of the Earth. This is important because the new race that Kalki comes to open can also be considered quaternary, giving room for many to aspire to the fourth initiation or true liberating enlightenment. However, in this case, it is expected that the paths to enlightenment will be increasingly smooth and accessible to humanity. After all, and as they say in the spiritual worlds, the avatar always burns up to half of humanity's karma with his own efforts and sacrifices.

The great difference between lunar avatars such as Buddha and Jesus is that they seek to take humanity to paradise, while solar avatars such as Krishna and Kalki or Maitreya seek to bring paradise to humanity.

For in truth Kalki and Padma brought with them the great internal signs of the Vaikuntha paradise, bringing together the planets highlighted in the present planetary transition, since Vaikuntha is also the name of a special avatar of Vishnu, so that Kalki and Padmavati were also true Incarnations of divine Love.

Throughout her intense and well-spent life, Kalki learned many excellent forms of love, beyond the one that people know within their families. She also learned about love for Nature, love for God, love for Truth, love for the Master, love for disciples, love for humanity, love for the Soulmate and many others. All of these can be pure and excellent, giving greater meaning to human existence and opening paths to liberation from the illusions of matter.

The sacrament of Love represents one of the greatest mysteries of sacred institutions. Its mysteries rarely come to light more fully in the life of the layman, and yet its reality marks the history of religions with an indelible and incontestable mark. Indeed, the story of Kalki and Padmavati that is presented here evokes many stories of other avatars and perhaps also sheds light on the paths of many others whose stories were lost or corrupted for one reason or another.

Romances between Initiates rarely end with romantic words like “happily ever after.” The big difference is that ordinary people’s time is limited to this one existence, while those who know true love enjoy eternity in this and other lives.

No Master or Avatar really dreams of happiness in this world, because they descend to it to serve unconditionally and as renouncers of nirvana. On the other hand, Kalki and Padma knew perfectly well that, because they had performed their work with perfection and dignity, the most exalted places in the Paradise of the god Vishnu called Vaikuntha, from which they had one day come and to which they would return, were now reserved for them.


To learn more 

The Legend of the Kalki Avatar 

Maitreya and Shamanism

Maitreya and the Serpentine Experience

Maitreya's Mission - The Revelation

Maitreya's Enlightenment

See also

2025 and the Prophecies

Whart are the Masters 

Four Key Points to be Revisited in Theosophy

2025 and the course correction in the New Era


About the Author

Luís A. W. Salvi (LAWS) has been studying the Ancient Mysteries for over 50 years. A specialist in the Philosophies of Time and Practical Esotericism, he also develops works in the areas of Perennialism, Deep Psychology, Esoteric Anthropology, Holistic Sociology and others. He has already published dozens of works through Agartha Publisher, in addition to maintaining the Agartha wTV Channel.