Antigos profetas hebreus já anunciavam a futura chegada de um Messias libertador da Casa da Davi e portanto da Tribo de Judá. Contudo a missão de Jesus também foi alvo de grandes dúvidas e confusões, porque poucos entenderam os seus verdadeiros desígnios.
Jesus desde o começo esteve marcado pela profecia real-sacerdotal, como ao precisar fugir para escapar da perseguição de Herodes contra as crianças. Já ali grande era a confusão sobre a verdadeira missão dos profetas, mas Jesus teve oportunidades de demonstrar a sua verdadeira natureza, mesmo necessitando pagar com sua vida por isto.
A certa Jesus foi explicitamente tentando a ter o poder do mundo, mas evadiu-se desta tentação do diabo, ele sim declarado “senhor deste mundo” pelo Mestre. Somente um senhor pode oferecer a alguém aquilo que possui. Aceitar esta oferta seria portanto servir ao diabo. Para Jesus, aceitar seria também uma redução e um desvio em sua própria missão. Tampouco Judas conseguiu depois forçar Jesus a comandar uma rebelião para tentar livrar-se da condenação à morte.
O conceito da realeza sagrada remonta há muito tempo na humanidade. Não obstante existem variantes aqui. Este é um assunto complexo que tem provocado confusão através dos tempos, mas podemos analisá-lo melhor à luz das quatro polaridades do Tao, que são os ying e yang “puros” e os ying e yang “combinados”.
Assim, por um lado teremos a monarquia simples que se afirma pela força e pela tradição de sangue, e teremos também o sacerdócio simples sem qualquer vínculo com a política. Tais categorias praticamente não se comunicam portanto, senão incidentalmente. Quiçá possamos ver nos estados materialistas modernos exemplos disto, pelo viés da política temporal. Assim como nas ordens monásticas retiradas do mundo a sua contraparte pelo viés espiritual.
E de outro lado temos combinações que resultam tanto na realeza sagrada como no sacerdócio real. Estes podem ser entrevistos da doutrina política de Platão, ao dizer que um Estado ideal deveria ser governado ou por um rei-filósofo ou por um filósofo-rei (adiante revisaremos porém as posições de Platão). É aqui que as categorias se comunicam melhor, uma vez que existem francos interesses comuns.
Um rei-filósofo é aquilo que no Oriente se conhece como dharmaraja, que atua no sentido de aproximar politicamente a sociedade da religião. Todas as religiões orientais contaram com tais personagens, e os reis mongóis o fizeram algumas vezes em favor do Lamaísmo. Naturalmente houve também no Ocidente vários nomes com tais predicados.
Um filósofo-rei, por sua vez, sequer seria um filósofo que ocupa ele mesmo uma posição política (como regente de uma teocracia, por exemplo), e sim um filósofo-maior que detém as chaves para a boa condução das coisas no plano social, como propósitos de evolução cultural e civilizatória da humanidade. Trata-se de um detentor do conhecimento perfeito das Leis cósmicas e também das Leis sociais, no sentido da cosmologia social, das leis da geografia sagrada, da evolução das raças, da iniciação coletiva e assim por diante.
Nas religiões e nas sociedades antigas era comum a ideia do “herói civilizador” que entregou a certa altura uma série e elementos civilizatórios para um grupo de indivíduos. Sem dificuldades veremos que estes seres estavam imbuídos pela ideia do sacerdócio. Algumas fontes falam também de grupos ou escolas de iniciados que a certa altura mudaram os rumos de alguma sociedade. Na Índia tem-se o conceito do Manu como um avatar civilizador enviado por Brahma.
Dispensa comentários, pois, a enormidade dos potenciais da reunião destes dois tipos de profissionais complementares - o político e o sacerdotal. Até por isto, consideramos importante retificar as colocações de Platão, para quem qualquer destas categorias poderiam isoladamente reger um Estado. Na verdade o Estado ideal necessita contar isto sim com ambas as categorias atuando em mútua colaboração. Tratam-se de atividades tão especializadas que, mesmo tendo importantes pontos em comum, não podem ser confundidas, misturadas ou combinadas de uma forma mais direta e pessoal. Por isto é que, mesmo em Teocracias como a tibetana, não era possível prescindir de um cargo mais político como o do Dalai Lama, e de um cargo mais espiritual como o do Panchem Lama. Este consórcio resultante é tradicionalmente conhecido como Sinarquia.
A Volta do Cristo
Agora a pergunta mais importante. Qual a verdadeira missão de Jesus Cristo?! A natureza de Jesus estaria mais próximo de um filósofo-rei, ainda que tal situação permanecesse mesmo ali num plano profético, uma vez que Jesus era um Bodhisatwa e como tal a sua ênfase era realmente aquela do sacerdócio “puro” e, como tal, ainda de transição. Sentia vínculos naturais com Israel em função de sua filiação familiar e do próprio histórico espiritual da nação, que desejava ver cumprir com retidão a sua singular missão histórica, nem sempre respeitada pelos próprios judeus é verdade. Além disto, Jesus valorizava a região que estava sendo assinalada pela evolução cósmica ou pelo eixo precessional da Terra, tal como havia sido identificada no seu nascimento pelos Reis Magos. Por detrás da linguagem popular dos milagres, existe toda uma simbologia de legitimação da sua autoridade e de manifestação de justiça e de fraternidade, sem deixar de dar explícitas orientações políticas (a palavra “reino” aparece cerca de 54 vezes no Evangelho de Mateus), revelando-se assim um arauto da civilização.
Não obstante, também existe um seleto entendimento nas religiões em geral de que Jesus foi um grande profeta, com grande espiritualidade e dons especiais de revelação, mas não ainda um mensageiro sumamente qualificado para desencadear a reforma e a renovação profunda de toda uma civilização. Ao mesmo tempo em que Ele mesmo seria o sinal da aproximação das novas coisas da humanidade, quiçá do próprio final dos tempos da sua evolução.
Com isto, a Sua vinda nunca foi desvinculada das profecias sobre o seu futuro regresso em estatura maior, que é onde encontramos a profecia do Cristo Pantocrator, representado portando o Livro da Lei ou o Livro do Conhecimento, que é a mesma coisa. Esta representação é comum sobretudo no cristianismo ortodoxo, e que não deixaria de corresponder às expectativas judaicas sempre que bem entendidas. É claro que, em nossas comparações taoístas, o Pantocrator estaria muito próximo ao próprio Tao, ainda que este centro costume ser representado pelo vazio ou por Deus mesmo. Um Avatar é sabidamente uma manifestação divina. As quatro polaridades do Tao são como os braços e as pernas do sábio universal. As ideologias de classes são subexpressões fragmentadas da Verdade Una que orienta a verdadeira Civilização.
Existem modelos para esta atuação na Bíblia? Sim, encontramos ali o consórcio sinarquista entre Melquisedec e Abrahão, como típicos personagens sinárquicos, tanto que foram uma inspiração para Saint Yves d’Alveydre fundamentar esta doutrina. A Eucaristia que aparece pela primeira vez com Melquisedec, retrata este consórcio através do simbolismo do pão e do vinho.
Em última análise, o Pantocrator seria o arauto de uma nova civilização espiritual para a qual trará todos os grandes fundamentos, agora que abre-se uma nova raça ou ciclo civilizacional para a humanidade. Para isto prima-se pelo resgate de todos os grandes elementos da espiritualidade, em termos de educação, iniciação, iluminação e até ascensão espiritual.
Entendemos pois que o Cristo será o arauto de uma nova civilização espiritual, a quarta raça desta quarta ronda, seguindo e coroando a evolução espiritual da humanidade. Todos estes quaternários sinalizam o final da evolução material. A sua sequência já deverá acontecer em outros planos. Podemos simbolizar a quarta iniciação pela fênix. A espiritualidade realmente tem dialogado longamente com a tecnologia buscando equilibrar as coisas, basta ver o simbolismo empregado. E agora a tecnologia foi tão longe ameaçando a matéria que a espiritualidade também deverá responder à altura transcendendo tecnicamente a necessidade do mundo material através da iluminação. Sob este ângulo de profissionalismo e tradição, a ideia de uma evasão planetária progressiva e espiritualmente programada deixa de soar como um escapismo qualquer, para se tornar uma verdadeira esperança de alternativa de vida ou de existência para a humanidade através de suas crenças e ciências espirituais. Até porque existe o tacão da História pressionando nesta direção, através das crises planetárias profundas provocadas pela tecnologia.
A Nova Era será o grande palco de conflitos e de resoluções nesta direção. E naturalmente, tudo isto deverá estar centralizado uma vez mais na região a ser assinalada pelo polo precessional, que na atualidade toca à América do Sul e, mais exatamente, ao Brasil no seu primeiro momento que corresponde à Era de Aquário.
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Sobre o Autor
Luís A. W. Salvi (LAWS) é estudioso dos Mistérios Antigos há mais de 50 anos. Especialista nas Filosofias do Tempo e no Esoterismo Prático, desenvolve trabalhos também nas áreas do Perenialismo, da Psicologia Profunda, da Antropologia Esotérica, da Sociologia Holística e outros. Tem publicado já dezenas de obras pelo Editorial Agartha, além de manter o Canal Agartha wTV.


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